Arquivo de Autor de Filipe Duarte Filipe Duarte

09
Jul
08

José Goulão o labirinto da conspiração

Este não é um livro recente. O labirinto da conspiração de João Goulão, foi editado pela Caminho no já distante ano de 1986.

O labirinto da conspiração, analisa três vértices da conspiração internacional: a maçonaria (nomeadamente a loja P2), a máfia e a Opus Dei. No essencial, parece-me que Goulão procurou expor aos olhos do leitor as realidades não visíveis, mas que podem ser precepcionadas, e que de uma forma ou de outra acabam por ter relevância no fluxo da sociedade.

Teias, ligações, compadrios, amiguismos, corrupções, tudo na calada do segredo típico de organizações secretas (que por algum motivo querem ser secretas…). Igreja, poder económico, poder político, serviços secretos, grupos bombistas. Poder e dinheiro, muito dinheiro. Os traços comuns de todas estas organizações, os objectivos finais de todas.  

Analisando o livro hoje, é fácil notar alguma desactualização, mas também se pode notar o intenso trabalho de busca e investigação feito pelo seu autor. E nestas coisas, há uma coisa que deve ser dita, escrever o que foi escrito, foi também um acto de coragem. 

04
Jul
08

Isabel Allende A casa dos espíritos

Não obstante as afamadas qualidades literárias da autora, para mim A casa dos espíritos foi uma agradável surpresa. Confesso que o início do livro não permitia antever um final tão belo.

A casa dos espíritos é um livro sobre uma família da burguesia chilena (para bom entendedor meia-plavra bsta!), sobre a sua ascensão social, sobre os seus membros, características e personalidades. As desventuras amorosas e sociais de uma família-bem, que no entanto acaba por ser extraordinariamente heterogénea nas visões do mundo.

Objectivamente, é um livro sobre desilusão, e sobre as mudanças, desilusões amorosas e políticas, as mudanças sociais.

O climax do livro é o processo eleitoral que conduziu Allende ao poder no Chile, e a revolução de extrema-direita levada a cabo pelas forças conservadoras e militares, com a face mais visível de pinochet.  destaco este aspecto, porque uma (a) personagem central na obra é o patriarca da família, homem conservador, que tudo fez para que Allende não chegasse ao poder, e não o conseguindo tudo fez para que este fosse destituído. E aí surge a sua desilusão, por ter contribuido para a implantação de um regime que conduziu a sua pátria para a desgraça e a sua neta para a tortura.

O livro é isto, uma visão do Chile no século XX, mas dos conturbados anos 70 em particular.

10
Jun
08

Thomas Berger Pequeno Grande Homem

27
Mai
08

Roberto Saviano Gomorra

Gomorra, pela Editora Caderno, é um livro de Roberto Saviano, um jovem escritor napolitano de 28 anos apenas. Revelou-se um livro e um escritor de grande consistência.

Gomorra é uma viagem ao império económico e ao sonho de domínio da máfia napolitana. Saviano descreve a forma tentacular como a Camorra (máfia napolitana) consegue exercer o seu domínio no tecido económico e empresarial do Sul da Itália e na Região napolitana.

Só para se ter uma ideia, o livro começa com a arrepiante história de cadáveres descobertos no momento em que embarcavam, no porto de Nápoles com destino à China. Não, não foram vitimas de um massacre, correspondiam apenas a chineses que uma vez falecidos pretendiam ser enterrados em solo chinês e que pagavam pela devolução dos seus corpos. Até neste escabroso negócia a camorra entrava.

Outras questões também bastante interessantes, e que o livro aborda, prendem-se com a influência e admiração que a camorra tem entre tantos jovens, a forma como eles admiram e imitam as associações camorristas. A forma como são treinados pela própria camorra para se tornarem verdadeiros maiosos. Os pequenos delitos, os ensaios de pancada, as provas de coragem, os testes psicológicos e de lealdade. Tudo alvo de um menso escrutínio mafioso. 

O resto do livro é um pouco o cortejo dos negócios e ligações entre as associações camorristas e o poder económico e político. O tráfico de armas e de droga, de roupa, de gente, de cadáveres, o tráfico um pouco de tudo, pois tudo pode ser sujeito a tráfico e a percentagem camorrista.

Também a influência do cinema é abordada no livro de Saviano,  a clarificação entre o que é a realidade e o que é hollywood, como a realidade e a ficção se tocam e influenciam reciprocamente. O vestuário, os gestos, a fala, as formas de matar.

 O resto do livro prende-se um pouco ás questões relacionadas entre as associações camorristas, as histórias das rivalidades e dos massacres, a polícia e a anti-máfia, as fugas, as prisões, os julgamentos, enfim, as faces da camorra, por ventura, mais expostas ao mediatismo.

O livro é bom, está no seguimento de outros livros publicados sobre o tema. É aconselhavel a quem se interessa pelo assunto e por questões sociais.      

(lamento mas não conseguir alojar neste Post qualquer imagem…)

20
Mai
08

Crónica de Ruben de Carvalho

no Expresso de 17.5.2008

A questão que se levanta em torno da realização da Feira do Livro de Lisboa fará correr certamente bastante tinta. Como tenho ideia de jamais ter faltado a alguma (embora a presença nas primeiras tenha sido substancialmente irrelevante…), julgo que talvez me seja permitido alinhavar umas considerações…
Comecemos por constatar que o respeito que merece a provecta idade da Feira não pode fazer esquecer as inúmeras mutações verificadas em tudo o que respeita ao livro.
Interessará salientar uma: a Feira ligou-se intimamente à Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, a APEL. Ora, não pode deixar de se apontar que a APEL é uma organização com traços originais, apenas compreensíveis quando se recorda que reflecte a realidade criada pelo salazarismo e o seu genético obscurantismo cultural.
É fácil depreender ser relativamente estranho que surjam associados numa mesma estrutura entidades que, lidando embora com a mesma realidade, com o mesmo produto – o livro – não têm em relação a ele exactamente os mesmos interesses. Em última instância, poderá mesmo dizer-se que conflituam porque, embora ambos desejem que o livro tenha a maior venda possível, os proventos que dele tirarão são inversos: maior seja a margem do editor no custo do livro, menor será a do livreiro – e vice-versa.
O facto da APEL se ter constituído releva da herança política e cultural do salazarismo: por um lado, alguma herança (mais que não fosse orgânica) do quadro legal fascista e da sua mistificação corporativa – os grémios – tentando iludir as contradições que inevitavelmente atravessam as sociedades; por outro, e mais importante, exactamente o facto de à época editores e livreiros terem um adversário comum – a repressão censória, a apreensão, a perseguição policial – que criou, como em tantas outras áreas da sociedade portuguesa, a evidência de que acabava sendo mais importante quanto os identificava do que quanto os separava. E tal evidência ainda mais floriu com os cravos de Abril.
Decorridas três décadas, naturalmente que lógicas diferenças de interesses se vieram a revelar ou avolumar, o que acabou por dar origem ao surgimento de nova organização associando exclusivamente editores, enquanto se manteve a APEL, procurando manter a postura de conjugar interesses e tradições nas actividades dignificadas pela comum ligação ao livro.
Das técnicas gráficas à entrada de grandes capitais na produção e na distribuição livreira, foram entretanto enormes as modificações. E, previsivelmente, agravaram-se contradições não apenas entre os protagonistas, mas em geral. Para muitos dos seus participantes, a Feira do Livro de Lisboa tem visto diminuir a sua antiga relevância económica e não podem ser ignoradas as já antigas advertências de que alguma coisa tinha de mudar face à perda de eficácia dos generosos critérios de organização e funcionamento.
O processo de concentração do sector nos últimos meses veio inevitavelmente introduzir novos factores de perturbação.
Que todos os interessados debatam a situação e tentem encontrar soluções é manifestamente a única alternativa.
Mas este interessado, certo de exprimir a concordância de muitos outros, desde já se manifesta não apenas interessado, mas inteiramente disposto a dar o seu contributo! Não se importam de fazer a Feira este ano de maneira que a gente possa lá ir ter o profundo prazer de descobrir folhas e capas desconhecidas ou esquecidas? E comprá-las, claro. Um pouco mais barato…

15
Mai
08

Fiódor Dostoiévski Os irmãos Karamazov

Este é dos livros mais difíceis de criticar ou mesmo comentar. Acabei agora mesmo de ler as quase 1000 páginas desta obra, traduzia directamente do russo por Nina Guerra e por Filipe Guerra, ainda estou na ressaca da leitura…

Indo ao que interessa, esta é mais uma bela obra Dostóievski, está muito na esteira dos seus outros trabalhos que já li e sobre os quais já aqui deixei a minha opinião. Mais um livro caracterizadvel pelo realismo psicológico que percorre a obra de Fiódor.

 A história, sumariamente, é sobre o assassinato do pai de uma familia, vindo um dos seus filhos a ser acusado e condenado pelo homicídio. Até aí e a partir daí se desenvolve uma imensa história e trama envolvendo os irmãos. Naturalmente, tudo isto enquanto o autor vai caracterizando a sociedade de São Petersburgo à época.

Quem sou eu para criticar uma obra maior de um escritor maior… mas apetece-me desabafar… penso que oesta obra peca um pouco por excesso. Excesso de trama, de enredo e de pormenor, o que não facilita a leitura e concentração do leitor. Confesso também, que julgo que esta não é uma obra para todos os leitores, ela é complexa e extensa. A compreensão da mesma não é fácil nem imediata.

Mas a verdade é que vale a pena. A prova de que gostei d’Os Irmãos karamazov e que gosto de Fiódor é que parto já de seguida para a leitura de O Idiota, depois conto…  

14
Mai
08

um pouco de BB

“Quem construíu a Tebas de sete portas? Nos livros estão nomes de reis. Arrastaram eles os blocos de pedra? E a Babilónia várias vezes destruída? Quem a reconstruiu tanta vezes? Em que casas da Lima dourada moravam os construtores? Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta? A grande Roma esta cheia de arcos do triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem Triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio tinha somente palácios para os seus habitantes? Mesmo na lendária Atlântida, os que se afogavam gritaram por seus escravos na noite em que o mar a tragou. O jovem Alexandre conquistou a Índia. Sózinho? César bateu os gauleses. Não levava sequer um cozinheiro? Filipe da Espanha chorou, quando sua Armada Naufragou. Ninguém mais chorou? Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos. Quem venceu além dele? Cada página uma vitória. Quem cozinhava o banquete? A cada dez anos um grande Homem. Quem pagava a conta? Tantas histórias. Tantas questões.”

Bertold Brecht

14
Mai
08

a saga continua…

… o grupo leya adquiriu a editora Oficina do livro. O processo de concentração continua.

05
Mai
08

Vasily Grossman Um escritor na guerra

Vasily Grossman foi um jornalista de guerra, soviético de origem judaica. Por motivos profissionais segiu o Exército vermelho durantea 2º guerra Mundial. Desde Estalinegrado a Berlim. Fez um conjunto de textos e observações verdadeiramente notáveis.

Vasily Grossman em  Um escritor na guerra, descreve de uma forma nua e crua o que foi a Frente Oriental da 2º Grande Guerra, a frente onde se encontrava sensivelmente 90% do poderio bélico da Alemanha nazi. Grossman descreve a violência do ataque|ocupação nazi em solo soviético. As barbaridades e torturas, o carácter apocalíptico de um ataque que ão visava derrotar um inimigo, mas sim eliminá-lo.

Grossman descreve a reconquista do Exército Vermelho, desde Estalinegrado até à vitória final em Berlim. Os percursos e os incidentes. A vida dos soldados e das populações.

Existe um momento do livro que é notável, penso mesmo que todos os homens o deveriam ler uma vez na vida. Treblinka.

Vesily Grossman foi um dos primeiros soviéticos a descobrir e a entrar em treblinka, um dos mais terriveis campos de concentração nazis, situado na Polónia. Grossman fez uma descrição do campo ao pormenor, relatou tudo o que viu e ouviu, calculou o número de mortos e as atrocidades por que terão passado. O seu testemunho veio até a ser utilizado no Julgamento de Nuremberga. Arrepiante.

Resumindo, o livro é de facto muito bom. Dispensaria apenas alguns apontamentos feitos pelos organizadores do livro Antony Beevor e Luba Vinogradova.  

24
Abr
08

James Walvin Uma história da escravatura

«Arrancado a um estado de inocência e liberdade de forma tão cruel e bárbara, e assim remetido para um estado de horror e escravatura: eis uma situação de abandono que é mais fácil imaginar do que descrever.»
Ottobah Cugoano (escravo sobrevivente de uma viagem transatlântica), 1787

James walvin faz ujm trabalho simples e prático. Em duzentas-e-tal páginas descreveu a história da escravatura. Desde a antiguidade clássica até ao seu “fim”, à abolição. A escravatura na antiguidade clássica, no Médio Oriente/Islão, na época medieval, nos “Descobrimentos”, na América.

O livro retrata as condições de vida e de trabalho das sucessivas gerações de escravos, nos diversos mercados de escravos do mundo. As próprias profissões e relações sociais que se estabeleciam entre os escravos e os seus exploradores, as próprias comunidades e vivências dentro das próprias comunidades de escravos são retratadas ao longo da obra.

Este é um livro dramático. É um livro que espelha a crueldade humana, não apontando qualquer limite para esta. Os relatos que se fazem do transporte de escravos desde África até à América são particularmente chocantes, demonstrando  uma avidez pelo lucro e um mercantilismo insuportável, uma barbárie que para sempre envergonhará a humanidade.

Note-se que hoje, diversas associações que no passado eram abolicionistas, voltam hoje a ter trabalho, devido ás novas formas de escravatura(s).

Globalmente, este é um bom livro, de leitura e compreensão fácil. Altamente recomedável para jovens leitores e para quem não alinha em encobrimentos.   

21
Abr
08

quando o capitalismo descobre a Cultura

Feira do Livro: Grupo Leya não participa na Feira do Porto e pondera participação na de Lisboa

Lisboa, 18 Abr (Lusa) – O administrador-delegado do Grupo Leya, Isaías Gomes Teixeira disse hoje que o seu grupo editorial não estará presente na próxima Feira do Livro do Porto, em Maio, e pondera a presença na de Lisboa.

“O Grupo Leya não vai á Feira do Livro porque não temos interesse nela, nem a feira tem um volume de negócios que o justifique”, disse à Lusa Isaías Gomes Teixeira.

Quanto à Feira de Lisboa “depende de como irá ser organizada”, sublinhou.

O início da Feira do Livro de Lisboa está marcado para dia 22 de Maio, no Parque Eduardo VII, e a do Porto decorre de 24 de Maio a 10 de Junho no Pavilhão Rosa Mota.

A saída do Grupo Leya da Feira do porto implica a não participação e venda de livros de autores como António Lobo Antunes, José Saramago, Edurado Agualusa, Mário Cláudio, Manuel Alegre, Lídia Jorge, Mia Couto, Alice Vieira ou Rosa Lobato Faria.

O Grupo Leya, apresentado a 07 de Janeiro passado no Estoril, é liderado pelo ex-administrador do Grupo Media Capital, Miguel Paes do Amaral, e integra oito editoras, seis delas nacionais.

Constituem a Leya as editoras portuguesas Asa, Caminho, D. Quixote, Gailivro, Novagaia e Texto, a chancela angolana Nzila e a editora moçambicana Nadjira.

Na sessão de apresentação Gomes Teixeira afirmou que o grupo projecta editar este ano mil novos títulos e facturar 90 milhões de euros.

in rtp.pt

17
Abr
08

Gabriel García Marquez Viver para contá-la

Viver para contá-la de Gabo. Um livro auto-biográfico que remonta até à infância do autor, estendendo-se até ao início da sua carreira.

O mais fascinante neste trabalho, acaba por ser a capacidade de Gabriel García Marquez em recordar tantos e tão pormenorizados aspectos da sua vida. É mesmo espectacular como aproveitando est técnica, consegue transportar o leitor para esses espaços da sua vida, para as suas cidades, ruas, casas, escritórios… como consegue transportar o leitor para uma Colômbia envolvida nas constantes lutas entre Liberais e Conservadores.

Como sempre neste tipo de escrita, acaba por se realçar a forma como o autor se vê a si próprio e como viu e vê os outros, o seu mundo e o mundo em comum. Os amigos, a família, os colegas, e as ínumeras personagens que vão parecendo pelos mais pequenos pormenores ao longo da obra.

Sublinho a ideia que fica da Colômbia como um país belo e exótico, remoto e excêntrico.

Este é mais um bom livro de Gabriel García Maquez.   

03
Abr
08

Antonio Salas um ano no tráfico de mulheres

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Antonio Salas, pseudónimo, é um caso sério de jornalismo de investigação, uma modalidade morta em Portugal. Um ano no tráfico de mulheres é o trabalho resultante da sua infiltração no meio da prostituição e das suas máfias em Espanha. Tal como na sua primeira infiltração, em Diário de um skin, onde esteve no meio da extrema-direita espanhola, salas volta a fazer uma profunda investigação. Num caso e noutro, arriscou a sua saúde mental e a própria vida, disso não há dúvida. E quanto a isto, mais uma vez, Antonio Salas relata as suas dificuldades pessoais e psicológicas que um trabalho destes acarreta para o presente e futuro do jornalista e do indivíduo.

O tema dava pano para mangas, pensava eu. Mas, na verdade deu para muito mais que isso. Facto e aspectos para mim desconhecidos foram abordados por Salas. As ligações da extrema-direita espanhola na prostituição, o papel das crenças e do vudu nas prostitutas africanas, a origem e proveniência das prostitutas e dos seus clientes, a alta prostituição, a prostituição de luxo e de famosas…

Perfeitamente aterrorizadoras as caracterizações e os relatos feitos sobre as máfias de tráfico de seres humanos, de pedofilia e de sexo que se cruzam em Espanha, bem como a total destituição de escrúpulos dos seus generais e operacionais, gente integrante de redes mafiosas normalmente ligadas a outras redes e tráficos como de armas ou de droga. Máfia russa, romena, mexicana, colombiana, nigeriana, enfim, é só pensar quais são os países em dificuldades sociais e económicas…

Numa perspectiva mais literária, gostei mais do livro anterior. Provavelmente até por culpa da carga psicológica que é lidar com este meio, Salas resvalou  para um excesso de opinião pessoal, perdendo por vezes o norte. Por momentos perdeu a sua anterior objectividade, há mesmo períodos do livro onde o jornalismo praticado se assemelha ao de um tablóide, algum sensacionalismo e um excesso de juízo de valor quanto a factos, ideias e pessoas.  Achei também um retrocesso, as inúmeras apreciações insultuosas que Salas faz aos homens, mesmo aos que nunca foram clientes de prostituição. Ok, que Salas se distancie daquilo com que teve de conviver, mas não é preciso insultar todos os homens. Primeiro porque ele também é homem, segundo porque nem todos somos como os putanheiros…

Resumindo e indo ao que importa, vale a pena ler Um ano no tráfico de mulheres, e vale a pena continuar a seguir o trabalho de Antonio Salas. É bom jornalismo de investigação, apesar da crítica que se possa fazer aqui e ali.

 Esperam-se novidades de salas para brevemente. 

28
Mar
08

livrarias no Porto

“A Byblos não está só na intenção de reforçar a oferta livreira no Porto, sobretudo na zona da Baixa da cidade. O empresário Américo Areal, antigo proprietário das Edições ASA, entretanto adquirida por Miguel Paes do Amaral, foi o primeiro a anunciar a intenção de abrir “a maior livraria do país” na Praça de Lisboa, no cimo da Rua dos Carmelitas, mas, ainda antes da entrada em funcionamento desse espaço – o que não deverá acontecer antes do final de 2009, dada a complexidade do projecto de requalificação urbana -, a Baixa vai acolher a mais recente proposta livreira do grupo Civilização.

Situada na Rua Sampaio Bruno, a nova Livraria Leitura assume-se como o terceiro espaço da rede no Porto, depois das situadas na Rua José Falcão e no Shopping Cidade do Porto. São mil metros quadrados divididos por dois pisos num edifício que irá acolher também a sede do grupo livreiro, proprietário das livrarias Bulhosa, em Lisboa.

“A melhor zona da cidade”

Administrador do grupo Leitura/Bulhosa, Pedro Gil Mata classifica a aposta numa zona que até há pouco tempo era apenas associada ao abandono como “um sinal de esperança”.

“Acreditamos que este projecto possa ter um efeito galvanizador nesta área, atraindo mais investimentos”, concretiza o administrador, que apelida a Baixa portuense como “o melhor espaço comercial da cidade”.

“Temos a noção de que a livraria não será um fenómeno de vendas no imediato, mas a nossa intenção é rentabilizar o investimento numa perspectiva de longo prazo”, diz Gil Mata.

Para combater o muito apontado esvaziamento nocturno da Baixa, os responsáveis da Livraria Leitura planeiam um “horário de funcionamento alargado”, pelo que “o encerramento nunca será antes das 21 horas, com tendência para que feche ainda mais tarde durante o fim-de-semana”

Assumindo-se como “um espaço generalista”, a nova “Leitura” elege a ficção estrangeira como uma das suas principais apostas. O edifício, situado nas proximidades do Teatro Sá da Bandeira, foi adquirido de raiz pelo grupo e deverá albergar 90 funcionários.

Também a Bertrand planeia abrir brevemente um espaço comercial de grandes dimensões na cidade do Porto. Embora não se situe na Baixa – a Rua Júlio Dinis é o destino escolhido -, a nova loja insere-se numa reorganização estratégica do sector livreiro por parte da empresa detida pelo poderoso grupo Bertelsmann, já que deverá implicar o encerramento das lojas nos shoppings Brasília e Cidade do Porto, situadas nas imediações do novo estabelecimento.

O rol de espaços livreiros a abrir no Grande Porto durante os próximos meses é mais vasto e inclui ainda dois espaços previstos para o IKEA de Matosinhos. A Fnac e a Bertrand são duas das empresas que já manifestaram interesse em explorar os novos espaços. “

26
Mar
08

Fiódor Dostoiévski gente pobre

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Gente Pobre, escrito enquanto Dostoiévski apenas tinha 25 anos, é um podereoso livro de crónica social.

Duas personagens apenas, um humilde funcionário público e uma costureira, trocam cartas entre si, gente pobre está bom de ver. Uma caracterização da pobreza á moda russa. Em São Petersburgo. Os problemas diários relacionados com a habitação, a comida e o vestuário. O frio e uma sociedade que escarna dos pobres.  Um livro de Dostoiévski, mais um, com uma feroz crítica social. Provavelmente uma das obras que o mandou para a cadeia siberiana. 

Não seria um livro de Fiódor se uma feroz carga psicológica não carregasse as personagens, onde os seus passados pessoais se misturam com os seus feitios e reacções.

Chamo à colação Federico García Lorca, “o insigne escritor russo, Fedor Dostoiévski, muito mais pai da revolução russa do que Lenine”.

20
Mar
08

Fiódor Dostoiévski o jogador

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O Jogador de Dostoiévski foi publicado, tal como Crime e Castigo, em 1866. Ou seja, há quase 150 anos… Ora, começo mesmo por aqui a apreciação.

Dostoiévski é um romancista, que incute nas personagens das suas obras cargas psicológicas fortíssimas, o que acaba por lhes conferir alguma intemporalidade, e essa é uma arma da genialidade  de Dostoiévski. Na verdade, O Jogador é um texto marcado pelos sentimentos e sensações de um dependente. A angústia, a solidão, a adrenalina, a paixão, o desespero e a sorte. O leitor é transportado para o interior de uma sala de casino alemão no século XIX.

Um livro habitada por servos, mademoiselles, generais, nobres e burgueses, velhos e velhas desda a Alemanha até à Rússia. Acabando por construir também, uma caracterização social crítica  dos usos e costumes, esteriotipando ricos e pobres, explicando a diferenças entre uns e outros, mesmo no jogo.

O jogador não é o grande livro de Dostoiévski, mas é um bom livro e de fácil leitura.

17
Mar
08

john king the football factory

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“The best book i’ve ever read about football and working-class culture in Britain. Buy, steal or borrow a copy now”

Irvine Welsh
The football Factory de Jonh King, foi uma agradável leitura (previsivelmente agradável tendo em conta a boa referência deixada por uma autoridade na matéria como Irvine Welsh). O livro, que também já é filme, tem como personagem central um hooligan do Chelsea, e um vasto conjunto de personagens secundárias que contribuem para uma caracterização dos adeptos de futebol vulgarmente conhecidos por hooligans.
Jonh King não enche o livro com os lugares comuns sobre o hooliganismo, tão pouco tenta fazer juízos de valor ou condenações. Jonh faz do seu livro um ariete contra a hipocrisia de uma certa sociedade britânica que não admite culpas próprias, não admite a exclusão, o desemprego, a precariedade, ou a violência como uma extensão e consequência dos problemas sociais.
O livro não existe ainda em português, e receio que não venha a existir.
15
Mar
08

luiz pacheco exercícios de estilo

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Continuo num período pachecal. Foi literalmente “o diabo” para conseguir encontrar Exercícios de Estilo, é mesmo muito difícil encontrar esta obra publicada pela Estampa. Apetece-me dizer que só uma boa livraria tem este livro…

Valeu bem a pena a árdua procura. Exercícios de Estilo é uma compilação de textos e histórias, muitas delas não me acredito que sejam de carácter ficcional. Pelo contrário, são passagens da vida conturbada e fascinante de luiz.

Destaco 4 textos: O teodolito, Comunidade, Porto-Lisboa a pedir esmola e ainda O Libertino passeia por Braga, a idoláctrica, o seu esplendor

O teodolito, a imensa metáfora entre um instrumento de observação de astros e o sexo. A Comunidade, provavelmente o texto maior de Pacheco, onde este relata uma vida sexual em comunidade (o seu filho refere o carácter auto-biográfico deste texto nomeadamente a infância). Porto-Lisboa a pedir esmola, a aventura de quem não se resigna ao pouco dinheiro que tem, uma história que acaba por revelar aquela solidariedade escondida entre os portugueses, que parece aparecer apenas quando alguém “se chega á frente”. Ainda destaco O libertino passeia por Braga, a idoláctrica, o seu esplendor, outra dos melhores trabalhos de luiz Pacheco, obra censurada pela PIDE (como outras foram), que ele diz ter escrito num café bracarense enquanto esperava por ser atendido, obra que relata um fim-de-semana libertino e despreconceituoso pelas ruas da cidade dos três pês. Não aconselhável a mentes pequenas.

Ao longo da minha procura, soube que neste momento, e com um pouco de sorte, a única coisa que se pode encontrar será o Pacheco vs Cesariny. Também soube que está para sair uma série de re-edições de Luiz pela mão da Tinta da China. Espero que este boato se confirme. A literatura portuguesa, as livrarias e os leitores precisam de Luiz Pacheco.     

07
Mar
08

Drauzio Varella estação carandiru por um fio

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Comecei a ler Drauzio impulsionado pelo filme Carandiru. Descobri que por trás de um bom filme se escondia um bom livro e um melhor escritor.

Drauzio é(ou foi) um Médico oncologista e Professor que conseguiu a partir da sua experiência profissional, descrever experiências e histórias tipicamente humanas. Demonstrando na sua obra um tremendo humanismo e toda a coragem e fontalidade que têm que caracterizar não só um médico oncologista, mas um condutor de homens.

Em Estação Carandiru, Drauzio relata os seus anos de convívio com a comunidade prisional de carandiru, uma das mais sobrelotadas e violentas prisões da América do Sul, situada na periferia de São Paulo, que veio a encerrar após um massacre policial da sua comunidade a seguir a uma revolta. Ao longo do livro, Drauzio relata as teias sociais existentes na comunidade, o seu papel de amigo e confidente, as hierarquias que se estabelecem entre presos, os atropelos á lei, as  relações com os guardas prisionais, as famílias dos presos… É notável a clareza do livro, e o quanto ele nos alerta sobre as condições dos que não vivem em liberdade. Lembro-me de uma passagem em que um preso explicava que a sua cela estava impecável, porque todos os presos cumpriam as tarefas de limpeza, afinal de contas “malandro não vai enganar malandro”.

Por um fio é diferente, Drauzio relata as histórias de amor e de coragem que estão por trás de todas aqueles que sabem que vão morrer. A forma de encarar a morte e de lidar com a inevitabilidade de morer ás mãos de um qualquer câncro. Quando a esperança de uma vida feliz e se transforma na esperança de uma morte condigna e tão indolor quanto possível.

Drauziu Varella é um daqueles escritores que prova que a vida é muito maior que a escrita e,  demonstra que a descrição só faz sentido quando é realmente sentida.        

03
Mar
08

luiz pacheco diário remendado 1971-1975

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Voltando a Luiz Pacheco. Diário Remendado não é um diário de ficção anglo-saxónico do estilo de Sue Tenswood, autora de Adrien Mole ou ao estilo mais hard-core de Irvine welsh autor de títulos tão fortes como Trainspotting ou Porno. Tão pouco é um diário tipo As pequenas memórias de Saramago, apenas sobre um breve e inocente período de vida.

Diário Remendado é um diário não-ficcional, verdadeiramente nú e crú. O Diário começa, aos 45 anos de Pacheco, enquanto este recuperava no Hospital de Santa Marta de problemas relacionados com o excesso de álcool. Este pequeno aspecto, não deixa de ser ilustrativo do diário deste libertino e sacana.  Carinhosamente sacana.

Ao longo do Diário, ficam claros os problemas da saúde de Luiz, o trabalho e responsabilidade de criar uma criança de tenra idade como o seu filho paulo (paulocas), ao mesmo tempo que se tem uma vida libertina sem preconceitos de qualquer ordem. Remédios, álcool e bissexualidade, não obstante os seus constantes votos de beber menos, de tomar menos disto ou deixar de ter relações sexuais com aquilo. Mais do que isso, o diário mostra as angústias de um homem que quis ser um escritor de profissão e que por tal se debate diáriamente com problemas financeiros, vendendo textos e livros aqui e ali para suportar o seu dia-a-dia. Tudo isto e muito mais na sua casa de Massamá onde vivia com o seu bando de libertinos, “toda a casta de bicharada” nas suas palavras.

Note-se ainda ao longo do diário, as referências de Luiz Pacheco ao 25 de Abril, não só sobre as consequências políticas em si, mas também sobre os processos que a revolução desencadeou na cultura e literatura portuguesa.    

Este é um Diário Remendado, altamente recomendável e único na literatura portuguesa. Pela sinceridade possível, e porque revela a coragem de um ser que quer ser escritor, e livre, com uma libertinagem tão lúcida que até parece ser contraditória. 

Vale ainda a pena ler o posfácio de joão Pedro george, que mais uma vez faz uma análise muito lúcida ao trabalho de Pacheco.  

Alguma curiosidade sobre Luiz Pacheco pode ser satisfeita no seu portal oficial não-oficial.

28
Fev
08

the sopranos the complete book

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Ora aí está, um bom artigo para os apreciadores desta série de culto, The Sopranos, the complete book.

É escusado deter-me em grandes considerações sobre este achado, ele vale acima de tudo como uma recordação de uma série que já acabou. De resto, como outros livros do género, ele foca pormenores invisiveis para os tele-espetadores, pormenores dos cenários ou da montagem, opiniões dos actores e pequenas histórias de bastidores. De mais interessante, a entrevista ao realizador David Chase, em que este tem a frase “prefiro estar a fazer uma série do que ficar em casa a ver televisão”. Ah, o livro inclui ainda, belíssimos trabalhos fotográficos com as personagens da série.

Este livro, na verdade, só faz falta a quem gostava da série, ou, na melhor das hipóteses a quem quiser ter uma breve ideia da vida nos subúrbios de Nova Iorque. Family. They’re the only ones you can depend on.   

26
Fev
08

Truman Capote a sangue frio

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Acabo de acabar A sangue frio de Truman Capote. Já há muito tempo que tinha curiosidade de ler este autor americano do século XX, embora sucessivamente fosse adiando esse desejo, felizmente, pelo módico preço de 1 euro, a revista Sábado, trouxe-me um dos seus mais popularizados livros. Popularizado porque chegou ao cinema, entenda-se.

O que importa aqui, ao caso, é um elogio ao livro. O livro é realmente bom, descreve o massacre da familia Clutter, as investigações feitas até chegar aos responsáveis pelo seu massacre e o processo penal que estes passaram. Sublinhe-se esta parte final, porque o “julgamento popular” por que passaram os arguidos, a mediatização do caso e a importância deste around, e claro todas as questões jurídicas e morais que se levantam ante a pena de morte, acabam por ser questões de uma pertinência e actualidade tocantes.

Mas, o que mais gostei em A sangue frio, foi a caracterização da América dos anos 5o, do estilo de vida das familias, o papel da religião, os hábitos, as relações sociais e  a vida nas pequenas comunidades rurais. As pequenas referências à guerra mundial ou à guerra da Coreia (a guerra que nunca aparece). Enfim…recomenda-se este livro.

22
Fev
08

george orwell na penúria em Paris e em londres

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George Orwell é um dos meus preferidos. Muitos leitores apenas conhecem a obras como 1984 ou O triunfo dos porcos, mas Orwell é muito mais do que issso.  Bem, mas para já e para que não me esqueça, dou desde já os parabéns à Antigona pelo esforço que tem feito em editar e re-editar as obras de Orwell.

Orwell não é apenas um ficcionista ou noutra hipótese um vulgar escritor de fábulas, penso que na verdade a sua melhor qualidade é o relato.  É na narração que está o seu ponto forte, são diversos os seus textos, sob a capa de jornalista, que revelam capacidades como a atenção ou a objectividade. são óptimos exemplos de uma enorme capacidadede observação livros como O caminho para  Wigan Pier, sobre as comunidades mineiras do norte de Inglaterra, ou Homenagem à Catalunha, na guerra civil espanhola (mais tarde voltarei a estes livros).

Em Na penúria em Paris e em Londres, bem ao seu jeito, George Orweel conta as suas histórias de precário e mal pago trabalhador num Hotel e de vagabundo nestas duas cidades, as diferenças entre estas e as suas gentes e hábitos. Orwell relata a vida de um sem-abrigo, as suas amarguras e também, os pequenos prazeres e hábitos que vai  criando por forma a encontrar motivações no seu dia-a-dia. São deveras interesantes as caracterizações que Orwell faz sobre os centros de acolhimento em Londres ou o papel do túneis do Metro de Paris. Um óptimo livro.

“A fome reduz a pessoa a um estado sem cérebro, e sem coluna vertebral, que se parece mais com os efeitos tardios da gripe do que com outra coisa qualquer. É como se uma pessoa se tivesse transformado num molusco qualquer, ou como se não tivesse sangue, e o sangue tivesse sido substiuído por água morna. A inércia completa é a minha principal recordação da morte…”

20
Fev
08

breve caracterização de uma livraria decadente (em tempos)

“Comecei a ir à Leitura ainda se chamava Divulgação. Há muito tempo. Lembro-me de ver lá Sá Carneiro que tinha escritório perto. Lembro-me da Leitura pequena e da Leitura grande e da do meio, com os livros empilhados na escada que subia ao andar de cima, sem espaço. Lembro-me da Leitura de Fernando Fernandes. Quando a Leitura ganhou dimensão e espaço escrevi um texto que está aqui. Depois começaram os sinais imperceptíveis da decadência, sempre os mesmos livros, falta de renovação, rigidez nas estantes. A gente que habita livrarias percebe logo o que se está passar. Na última vez que lá tinha estado a senhora do balcão tinha lágrimas nos olhos, não sabia o que ia acontecer. O ciclo de vendas sucessivas começara e ninguém sabia o que ia acontecer.”

José Pacheco Pereira, in Abrupto

19
Fev
08

sentados no chão

“Há jovens que passam tardes, sentados no chão, a devorarem livros. Mas, esses, que hoje não compram nada, vão ser os mesmos que no futuro vão comprar muitos livros para os filhos”. E insiste que o lema deve ser: “Venha, leia, se quiser, compre”. Américo Areal, Byblos

via o absurdo

17
Fev
08

Luiz Pacheco o crocodilo que voa

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O crocodilo que voa, entrevistas a Luiz Pacheco, com organização e prefácio de João Pedro George. Um livro que compilando uma série de entrevistas, que vão desde os anos setenta até á sua última feita em Janeiro deste ano para o jornal Sol. Sacana, libertino e escritor, uma caracterização de Luiz Pacheco feita por Baptista Bastos, que parece acentar como uma luva na fascinante personagem que foi Pacheco.

Pacheco foi um profundo conhecedor da literatura portuguesa do século XX, dos seus personagens e da sua trajectória, foi um homem de uma frontalidade chocante, capaz de questionar tudo neste país onde nada se questiona e tudo parece mais ou menos bem. Mas também, nitidamente, um homem de um grande sentido de humor e de oportunidade, parece não haver momento algum em que ele não consiga tentar vislumbrar uma aberta onde possa espetar uma farpa. Mas sempre demonstrando nas entrelinhas uma tremenda sobriedade e atenção.

Quanto ao livro, lamente-se apenas a repetição de perguntas entrevista atrás de entrevista (facto que o Próprio Pacheco assinala), e também, algum opurtunismo que alguns entrevistadores demonstraram ao procurar ridicularizar ao máximo Luiz Pacheco. Mas, para Pacheco alguns dos entrevistadores não passaram de tremoços…

Algumas das entrevistas que destaco: Olhó Pacheco! sacana libertino e escritor de 1994, Sou um moribundo alegre de 1995, Isto só me tem dado chatices de 1995, estúpifos, conformistas, cobardes: é a maioria da malta de 2005, Eu não sou um marginal, porra, sou um senhor de 2005, não estou aqui a fazer pose de 2008.     

O crocodilo que voa é altamente recomendável, bem organizado e, pode com o tempo vir a ser um importante livro para a compreensão da literatura e de alguns dos seus criadores no séc.XX.  Enfim, vou pegar nestas palavras de Luiz Pacheco “Está para sair um livro de entrevistas suas… Esse livro é uma merda! Isso é uma aldrabice. É bom para andar por essas pequenas editoras“.

15
Fev
08

Alves Redol Barranco de Cegos

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Apetece-me fazer uma referência a este autor, por ventura extensível a toda a sua escola. Alves Redol é um dos escritores que está a morrer. Hoje, hoje em dia, não existem muitas livrarias que ainda tenham Alves Redol, menos ainda são aquelas que se poderão gabar de vender Alves Redol, é dificílimo encontrar obras como Barranco de cegos, Avieiros ou Gaibéus.

De facto, o neo-realismo, sob a forma literária, do início do séc. XX está desaparecer das estantes. Nas escolas não se dá, o público e os leitores também não manifestam grande interesse e, as editoras e o Estado não querem saber, ou porque não dá lucro ou porque não interessa… (nota – voltar a este tema mais tarde). A única boa notícia sobre o tema, foi a abertura do Museu do neo-realismo em V. Franca de Xira, que a ver vamos no que irá desaguar.     

Barranco de cegos, livro de 1962, e uma das melhores obras de Alves Redol. A narrativa é uma caracterização da burguesia ribatejana, do pensamento e estilo de vida daquela gente. A divisão existente, mesmo dentro da burguesia entre os liberais e os absolutistas, entre os repúblicanos e os monárquicos, entre os rurais e os urbanos. Mas não só pela caracterização da classe se fica, o relato narra as desventuras de uma família em que diferentes gerações apresentam distâncias cada vez mais latentes.

Como obra neo-realista que é, Barranco de cegos, expõe ainda as condições de vida e de trabalho da classe operária rural do Ribatejo. Enfim, uma obra importante do neo-realismo português.  

14
Fev
08

Anna Politkovskaya A Rússia de Putin

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Pela mão da Grito de Alma, com tradução de Pedro da Lua (cada vez parce ser mais importante o tradutor), o último livro da Anna Politkovskaya, “A Rússia de Putin”.

Ao longo do livro, nas vestes de uma jornalista de investigação, Anna descreve o fenómeno da corrupção e a forma tentacular que tem ao longo do Estado russo, ao longo das relações entre o Estado e o Privado. As pequenas histórias de poder e as teias de dependências que a corrupção produz. As classes sociais emergentes e os novas classes de poder nascidas no período pós-URSS.

O livro não se fica apenas pela corrupção. O livro faz também uma caracterização das condições de vida do povo russo, uma comparação entre o passado recente e o presente nas diversas dimensões. Conta histórias de gente, homens e mulheres que se perdem na guerra da Tchétchénia, dos que se perderam e se esconderam sob o escudo da burocracia e dos privilégios do exército russo e das suas altas patentes.

A mãe que perdeu o filho e tudo o que pouco que tinha para saber que o perdeu, o militar que recebendo um salário de miséria tem a seu cargo uma ogiva nuclear, os novos donos e as máfias da metalúrgia, a amiga que eniqueceu na corrupção, o massacre de Beslan… Resumindo, cada capítulo é uma reportagem que vale a pena ser lida. Anna Politkovskaya fez um bom livro.

“Nós, os que vivemos na União Soviética, onde quase todos tínhamos um emprego estável e um salário com que podíamos contar, que tínhamos uma confiança inquebrantável e ilimitada no que o amanhã nos traria. Nós, que sabíamos que havia médicos capazes de nos curarem de todas as doenças e professores capazes de nos ensinarem tudo; e que sabíamos também que não teríamos de pagar um tostão por tudo isso. Que tipo de vida pretendemos levar hoje? Que novos papéis nos foram dados?
As mudanças desde o fim da era soviética foram a triplicar. Primeiro, passámos por uma revolução pessoal (em paralelo, claro, com a revolução social), quando a União Soviética se dissolveu durante o consulado de Boris Yeltsin. Tudo desapareceu de um momento para o outro: a ideologia soviética, as salsichas baratas, o dinheiro no bolso e a certeza de que havia um Paizinho no Kremlin que, ainda que fosse um déspota, pelo menos era responsável por nós.
A segunda mudança veio em 1998 com o défice e a bancarrota. Muitos de nós tinham conseguido amealhar algum dinheiro nos anos que se seguiram a 1991, quando a economia de mercado foi efectivamente introduzida e houve sinais de aparecimento de uma classe média. Uma classe média à russa, convenhamos; não uma classe média como a que podemos encontrar no Ocidente (sem dimensão para suportar a democracia e o mercado, tal e qual está a acontecer com a decadência no Ocidente). Da noite para o dia, tudo isto desapareceu. Por essa altura, muitas das pessoas estavam tão cansadas da luta quotidiana pela sobrevivência, que não tinham forças para enfrentar um novo desafio, pura e simplesmente deixando-se afundar sem vestígios”.

13
Fev
08

Woody Allen Prosa completa

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Pela mão da Gradiva e das Produções Fictícias, a Prosa Completa de Woody Allen reúne de uma penada as suas três colectâneas de textos de humor, a saber: Sem Penas (Without Feathers), Para acabar de vez com a Cultura (Getting Even) e Efeitos Secundários (Side effects). 

É verdade que a faceta mais conhecida de Woody é a cinematográfica, filmes como Bananas, Manhattan, Vigaristas de Bairro ou Scoop, são pequenos marcos na comédia, revelando as suas capacidades enquanto actor e humorista. Note-se que Woody foi ainda realizador, por exemplo, recentemente em Match point.

Recuperando o tema, a Prosa Completa é uma belíssima compilação, que resulta num óptimo livro de humor, com bons argumentos (não se utiliza a ordinarice barata ou a simples buçalidade) construindo e inventando pequenos guiões facilmente adpatáveis para outras formas culturais, e consegue criar ainda personagens e enredos que têm tanto de desproporcionado como de metafórico. Sublinhamdo, são diversas as personagens criadas, que  acabam também por caracterizar um pouco a sociedade americana que tanto envolverá Woody Allen e a sua cidade de Nova Iorque.  

Uma frase, num tom meio-a-sério-meio-a-brincar, deixa uma ideia sobre o pensamento de Woody Allen“O problema principal dos estado-unidenses consiste na escolha entre Pepsi-Cola e Coca-Cola”.

13
Fev
08

Gabriel García Márquez e Fidel Castro, Os segredos de uma amizade

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Gabriel García Márquez e Fidel Castro, de Ángel Estebán e Stéphanie Panichelli, é, antes de mais, um livro que relata uma amizade profunda e de profunda solidariedade.

Quer Gabriel García Márquez quer Fidel Castro, não são figuras contornáveis da América Latina, pelo contrário, ainda que em espaços e esferas diferentes são duas personagens que acabam por marcar o seu meio. Diria mesmo, são duas personagens que em si transportam um pouco do imaginário latino-americano e caribenho. As personagens, bem reais, do livro são dois belíssimos expoentes do que foi a America Latina no século passado e no presente. Com todos os seus defeitos e virtudes.

Sem colocar de parte, esconder ou salvaguardar as suas concepções ideológicas e políticas sobre as opções de Fidel e de Gabo, em nitida oposição, os autores acabam por fazer uma séria caracterização sobre o papel que Castro e Gabo tiveram na América Latina, e sobre a História desse continente no séc.XX.

O essencial do livro, óbvio, é a amizade entre ambos, as pequenas partilhas e segredos. O apoio moral e ideológico que ambos proporcionaram sinalagmaticamente, fosse nos tempos difíceis de Gabo ou numa qualquer negociação complicada para o Estado cubano.  Criticamente, assinale-se um excesso de opinião política dos autores em relação á opções ideológicas de Fidel e Gabo, também é criticável a exposição excessiva de pormenores da vida privada, um pouco ao jeito côr-de-rosa.

Para quem se interessa pela América Latina, pela turbulência desta região, pelo século XX, fica um bom livro ainda assim, cuja leitura carece de alguma objectividade, e que conta a história de dois seres que se conheceram, faz muitos muitos anos,  na Faculdade de Direito de Bógota.   

13
Fev
08

Vladimir NabokovLolita

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Lolita, do escritor russo Vladimir Nabokov, é um livro de 1955, que posteriormente veio a ter adaptação cinematográfica pelo realizador Stanley Kubrick, já em 1960.

Em Lolita, Nabokov, descreve a figura de um pedófilo francês, professor, que vem a encontrar nos Estados Unidos, por motivos profissionais o seu amor. Lolita, uma criança a que terá de dar explicações.

Ao longo do livro, Nabokov, vai relatando a vida amorosa de um homem que não consegue saciar as suas necessidades em qualquer mulher do seu meio, tão pouco em vulgares prostitutas (com excepção para uma que afinal também era uma criança). A vida de um homem que gradualmente se vai desintegrando psicológicamente e emocionalmente, perdendo todo o senso  de racionalidade.   

Em Lolita, o autor consegue transportar o leitor para o olhar, o pulsar, as emoções de um pedófilo, que deixa de ser um mero apreciador de crianças para se transformar num obcessivo amante de uma criança apenas. Desde o momento em que trava contacto com ela, até ao momento em que consegue consumar a sua obcessão.  

12
Fev
08

O Dicionário do Diabo.

Hoje é o primeiro dia do Dicionário do Diabo. Este local não tem grandes pretensões, tão só ser um depósito de opinião livre e sincera, sem receio. Um espaço de diálogo, de confidência e de diálogo.

O Dicionário do Diabo, será um espaço de crítica literária, à escrita, ao livro, ao escritor e ao que rodeia a literatura. Desrespeitará as habituais fronteiras que se procuram criar. O Dicionário do Diabo não será um espaço acrítico, ou de meias verdades.

A imagem de capa do Dicionário do Diabo refere-se ao filme “O Padrinho”, obra escrita por Mario Puzzo. Naturalmente, a sua escolha não foi aleatória ou casual, representa uma opção.  

O caminho faz-se caminhando. Dicionário faz-se escrevendo.




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