Arquivo de Fevereiro, 2008

28
Fev
08

the sopranos the complete book

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Ora aí está, um bom artigo para os apreciadores desta série de culto, The Sopranos, the complete book.

É escusado deter-me em grandes considerações sobre este achado, ele vale acima de tudo como uma recordação de uma série que já acabou. De resto, como outros livros do género, ele foca pormenores invisiveis para os tele-espetadores, pormenores dos cenários ou da montagem, opiniões dos actores e pequenas histórias de bastidores. De mais interessante, a entrevista ao realizador David Chase, em que este tem a frase “prefiro estar a fazer uma série do que ficar em casa a ver televisão”. Ah, o livro inclui ainda, belíssimos trabalhos fotográficos com as personagens da série.

Este livro, na verdade, só faz falta a quem gostava da série, ou, na melhor das hipóteses a quem quiser ter uma breve ideia da vida nos subúrbios de Nova Iorque. Family. They’re the only ones you can depend on.   

26
Fev
08

Truman Capote a sangue frio

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Acabo de acabar A sangue frio de Truman Capote. Já há muito tempo que tinha curiosidade de ler este autor americano do século XX, embora sucessivamente fosse adiando esse desejo, felizmente, pelo módico preço de 1 euro, a revista Sábado, trouxe-me um dos seus mais popularizados livros. Popularizado porque chegou ao cinema, entenda-se.

O que importa aqui, ao caso, é um elogio ao livro. O livro é realmente bom, descreve o massacre da familia Clutter, as investigações feitas até chegar aos responsáveis pelo seu massacre e o processo penal que estes passaram. Sublinhe-se esta parte final, porque o “julgamento popular” por que passaram os arguidos, a mediatização do caso e a importância deste around, e claro todas as questões jurídicas e morais que se levantam ante a pena de morte, acabam por ser questões de uma pertinência e actualidade tocantes.

Mas, o que mais gostei em A sangue frio, foi a caracterização da América dos anos 5o, do estilo de vida das familias, o papel da religião, os hábitos, as relações sociais e  a vida nas pequenas comunidades rurais. As pequenas referências à guerra mundial ou à guerra da Coreia (a guerra que nunca aparece). Enfim…recomenda-se este livro.

22
Fev
08

george orwell na penúria em Paris e em londres

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George Orwell é um dos meus preferidos. Muitos leitores apenas conhecem a obras como 1984 ou O triunfo dos porcos, mas Orwell é muito mais do que issso.  Bem, mas para já e para que não me esqueça, dou desde já os parabéns à Antigona pelo esforço que tem feito em editar e re-editar as obras de Orwell.

Orwell não é apenas um ficcionista ou noutra hipótese um vulgar escritor de fábulas, penso que na verdade a sua melhor qualidade é o relato.  É na narração que está o seu ponto forte, são diversos os seus textos, sob a capa de jornalista, que revelam capacidades como a atenção ou a objectividade. são óptimos exemplos de uma enorme capacidadede observação livros como O caminho para  Wigan Pier, sobre as comunidades mineiras do norte de Inglaterra, ou Homenagem à Catalunha, na guerra civil espanhola (mais tarde voltarei a estes livros).

Em Na penúria em Paris e em Londres, bem ao seu jeito, George Orweel conta as suas histórias de precário e mal pago trabalhador num Hotel e de vagabundo nestas duas cidades, as diferenças entre estas e as suas gentes e hábitos. Orwell relata a vida de um sem-abrigo, as suas amarguras e também, os pequenos prazeres e hábitos que vai  criando por forma a encontrar motivações no seu dia-a-dia. São deveras interesantes as caracterizações que Orwell faz sobre os centros de acolhimento em Londres ou o papel do túneis do Metro de Paris. Um óptimo livro.

“A fome reduz a pessoa a um estado sem cérebro, e sem coluna vertebral, que se parece mais com os efeitos tardios da gripe do que com outra coisa qualquer. É como se uma pessoa se tivesse transformado num molusco qualquer, ou como se não tivesse sangue, e o sangue tivesse sido substiuído por água morna. A inércia completa é a minha principal recordação da morte…”

20
Fev
08

breve caracterização de uma livraria decadente (em tempos)

“Comecei a ir à Leitura ainda se chamava Divulgação. Há muito tempo. Lembro-me de ver lá Sá Carneiro que tinha escritório perto. Lembro-me da Leitura pequena e da Leitura grande e da do meio, com os livros empilhados na escada que subia ao andar de cima, sem espaço. Lembro-me da Leitura de Fernando Fernandes. Quando a Leitura ganhou dimensão e espaço escrevi um texto que está aqui. Depois começaram os sinais imperceptíveis da decadência, sempre os mesmos livros, falta de renovação, rigidez nas estantes. A gente que habita livrarias percebe logo o que se está passar. Na última vez que lá tinha estado a senhora do balcão tinha lágrimas nos olhos, não sabia o que ia acontecer. O ciclo de vendas sucessivas começara e ninguém sabia o que ia acontecer.”

José Pacheco Pereira, in Abrupto

19
Fev
08

sentados no chão

“Há jovens que passam tardes, sentados no chão, a devorarem livros. Mas, esses, que hoje não compram nada, vão ser os mesmos que no futuro vão comprar muitos livros para os filhos”. E insiste que o lema deve ser: “Venha, leia, se quiser, compre”. Américo Areal, Byblos

via o absurdo

17
Fev
08

Luiz Pacheco o crocodilo que voa

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O crocodilo que voa, entrevistas a Luiz Pacheco, com organização e prefácio de João Pedro George. Um livro que compilando uma série de entrevistas, que vão desde os anos setenta até á sua última feita em Janeiro deste ano para o jornal Sol. Sacana, libertino e escritor, uma caracterização de Luiz Pacheco feita por Baptista Bastos, que parece acentar como uma luva na fascinante personagem que foi Pacheco.

Pacheco foi um profundo conhecedor da literatura portuguesa do século XX, dos seus personagens e da sua trajectória, foi um homem de uma frontalidade chocante, capaz de questionar tudo neste país onde nada se questiona e tudo parece mais ou menos bem. Mas também, nitidamente, um homem de um grande sentido de humor e de oportunidade, parece não haver momento algum em que ele não consiga tentar vislumbrar uma aberta onde possa espetar uma farpa. Mas sempre demonstrando nas entrelinhas uma tremenda sobriedade e atenção.

Quanto ao livro, lamente-se apenas a repetição de perguntas entrevista atrás de entrevista (facto que o Próprio Pacheco assinala), e também, algum opurtunismo que alguns entrevistadores demonstraram ao procurar ridicularizar ao máximo Luiz Pacheco. Mas, para Pacheco alguns dos entrevistadores não passaram de tremoços…

Algumas das entrevistas que destaco: Olhó Pacheco! sacana libertino e escritor de 1994, Sou um moribundo alegre de 1995, Isto só me tem dado chatices de 1995, estúpifos, conformistas, cobardes: é a maioria da malta de 2005, Eu não sou um marginal, porra, sou um senhor de 2005, não estou aqui a fazer pose de 2008.     

O crocodilo que voa é altamente recomendável, bem organizado e, pode com o tempo vir a ser um importante livro para a compreensão da literatura e de alguns dos seus criadores no séc.XX.  Enfim, vou pegar nestas palavras de Luiz Pacheco “Está para sair um livro de entrevistas suas… Esse livro é uma merda! Isso é uma aldrabice. É bom para andar por essas pequenas editoras“.

15
Fev
08

Alves Redol Barranco de Cegos

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Apetece-me fazer uma referência a este autor, por ventura extensível a toda a sua escola. Alves Redol é um dos escritores que está a morrer. Hoje, hoje em dia, não existem muitas livrarias que ainda tenham Alves Redol, menos ainda são aquelas que se poderão gabar de vender Alves Redol, é dificílimo encontrar obras como Barranco de cegos, Avieiros ou Gaibéus.

De facto, o neo-realismo, sob a forma literária, do início do séc. XX está desaparecer das estantes. Nas escolas não se dá, o público e os leitores também não manifestam grande interesse e, as editoras e o Estado não querem saber, ou porque não dá lucro ou porque não interessa… (nota – voltar a este tema mais tarde). A única boa notícia sobre o tema, foi a abertura do Museu do neo-realismo em V. Franca de Xira, que a ver vamos no que irá desaguar.     

Barranco de cegos, livro de 1962, e uma das melhores obras de Alves Redol. A narrativa é uma caracterização da burguesia ribatejana, do pensamento e estilo de vida daquela gente. A divisão existente, mesmo dentro da burguesia entre os liberais e os absolutistas, entre os repúblicanos e os monárquicos, entre os rurais e os urbanos. Mas não só pela caracterização da classe se fica, o relato narra as desventuras de uma família em que diferentes gerações apresentam distâncias cada vez mais latentes.

Como obra neo-realista que é, Barranco de cegos, expõe ainda as condições de vida e de trabalho da classe operária rural do Ribatejo. Enfim, uma obra importante do neo-realismo português.