Arquivo de Março, 2008

28
Mar
08

livrarias no Porto

“A Byblos não está só na intenção de reforçar a oferta livreira no Porto, sobretudo na zona da Baixa da cidade. O empresário Américo Areal, antigo proprietário das Edições ASA, entretanto adquirida por Miguel Paes do Amaral, foi o primeiro a anunciar a intenção de abrir “a maior livraria do país” na Praça de Lisboa, no cimo da Rua dos Carmelitas, mas, ainda antes da entrada em funcionamento desse espaço – o que não deverá acontecer antes do final de 2009, dada a complexidade do projecto de requalificação urbana -, a Baixa vai acolher a mais recente proposta livreira do grupo Civilização.

Situada na Rua Sampaio Bruno, a nova Livraria Leitura assume-se como o terceiro espaço da rede no Porto, depois das situadas na Rua José Falcão e no Shopping Cidade do Porto. São mil metros quadrados divididos por dois pisos num edifício que irá acolher também a sede do grupo livreiro, proprietário das livrarias Bulhosa, em Lisboa.

“A melhor zona da cidade”

Administrador do grupo Leitura/Bulhosa, Pedro Gil Mata classifica a aposta numa zona que até há pouco tempo era apenas associada ao abandono como “um sinal de esperança”.

“Acreditamos que este projecto possa ter um efeito galvanizador nesta área, atraindo mais investimentos”, concretiza o administrador, que apelida a Baixa portuense como “o melhor espaço comercial da cidade”.

“Temos a noção de que a livraria não será um fenómeno de vendas no imediato, mas a nossa intenção é rentabilizar o investimento numa perspectiva de longo prazo”, diz Gil Mata.

Para combater o muito apontado esvaziamento nocturno da Baixa, os responsáveis da Livraria Leitura planeiam um “horário de funcionamento alargado”, pelo que “o encerramento nunca será antes das 21 horas, com tendência para que feche ainda mais tarde durante o fim-de-semana”

Assumindo-se como “um espaço generalista”, a nova “Leitura” elege a ficção estrangeira como uma das suas principais apostas. O edifício, situado nas proximidades do Teatro Sá da Bandeira, foi adquirido de raiz pelo grupo e deverá albergar 90 funcionários.

Também a Bertrand planeia abrir brevemente um espaço comercial de grandes dimensões na cidade do Porto. Embora não se situe na Baixa – a Rua Júlio Dinis é o destino escolhido -, a nova loja insere-se numa reorganização estratégica do sector livreiro por parte da empresa detida pelo poderoso grupo Bertelsmann, já que deverá implicar o encerramento das lojas nos shoppings Brasília e Cidade do Porto, situadas nas imediações do novo estabelecimento.

O rol de espaços livreiros a abrir no Grande Porto durante os próximos meses é mais vasto e inclui ainda dois espaços previstos para o IKEA de Matosinhos. A Fnac e a Bertrand são duas das empresas que já manifestaram interesse em explorar os novos espaços. “

26
Mar
08

Fiódor Dostoiévski gente pobre

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Gente Pobre, escrito enquanto Dostoiévski apenas tinha 25 anos, é um podereoso livro de crónica social.

Duas personagens apenas, um humilde funcionário público e uma costureira, trocam cartas entre si, gente pobre está bom de ver. Uma caracterização da pobreza á moda russa. Em São Petersburgo. Os problemas diários relacionados com a habitação, a comida e o vestuário. O frio e uma sociedade que escarna dos pobres.  Um livro de Dostoiévski, mais um, com uma feroz crítica social. Provavelmente uma das obras que o mandou para a cadeia siberiana. 

Não seria um livro de Fiódor se uma feroz carga psicológica não carregasse as personagens, onde os seus passados pessoais se misturam com os seus feitios e reacções.

Chamo à colação Federico García Lorca, “o insigne escritor russo, Fedor Dostoiévski, muito mais pai da revolução russa do que Lenine”.

20
Mar
08

Fiódor Dostoiévski o jogador

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O Jogador de Dostoiévski foi publicado, tal como Crime e Castigo, em 1866. Ou seja, há quase 150 anos… Ora, começo mesmo por aqui a apreciação.

Dostoiévski é um romancista, que incute nas personagens das suas obras cargas psicológicas fortíssimas, o que acaba por lhes conferir alguma intemporalidade, e essa é uma arma da genialidade  de Dostoiévski. Na verdade, O Jogador é um texto marcado pelos sentimentos e sensações de um dependente. A angústia, a solidão, a adrenalina, a paixão, o desespero e a sorte. O leitor é transportado para o interior de uma sala de casino alemão no século XIX.

Um livro habitada por servos, mademoiselles, generais, nobres e burgueses, velhos e velhas desda a Alemanha até à Rússia. Acabando por construir também, uma caracterização social crítica  dos usos e costumes, esteriotipando ricos e pobres, explicando a diferenças entre uns e outros, mesmo no jogo.

O jogador não é o grande livro de Dostoiévski, mas é um bom livro e de fácil leitura.

17
Mar
08

john king the football factory

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“The best book i’ve ever read about football and working-class culture in Britain. Buy, steal or borrow a copy now”

Irvine Welsh
The football Factory de Jonh King, foi uma agradável leitura (previsivelmente agradável tendo em conta a boa referência deixada por uma autoridade na matéria como Irvine Welsh). O livro, que também já é filme, tem como personagem central um hooligan do Chelsea, e um vasto conjunto de personagens secundárias que contribuem para uma caracterização dos adeptos de futebol vulgarmente conhecidos por hooligans.
Jonh King não enche o livro com os lugares comuns sobre o hooliganismo, tão pouco tenta fazer juízos de valor ou condenações. Jonh faz do seu livro um ariete contra a hipocrisia de uma certa sociedade britânica que não admite culpas próprias, não admite a exclusão, o desemprego, a precariedade, ou a violência como uma extensão e consequência dos problemas sociais.
O livro não existe ainda em português, e receio que não venha a existir.
15
Mar
08

luiz pacheco exercícios de estilo

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Continuo num período pachecal. Foi literalmente “o diabo” para conseguir encontrar Exercícios de Estilo, é mesmo muito difícil encontrar esta obra publicada pela Estampa. Apetece-me dizer que só uma boa livraria tem este livro…

Valeu bem a pena a árdua procura. Exercícios de Estilo é uma compilação de textos e histórias, muitas delas não me acredito que sejam de carácter ficcional. Pelo contrário, são passagens da vida conturbada e fascinante de luiz.

Destaco 4 textos: O teodolito, Comunidade, Porto-Lisboa a pedir esmola e ainda O Libertino passeia por Braga, a idoláctrica, o seu esplendor

O teodolito, a imensa metáfora entre um instrumento de observação de astros e o sexo. A Comunidade, provavelmente o texto maior de Pacheco, onde este relata uma vida sexual em comunidade (o seu filho refere o carácter auto-biográfico deste texto nomeadamente a infância). Porto-Lisboa a pedir esmola, a aventura de quem não se resigna ao pouco dinheiro que tem, uma história que acaba por revelar aquela solidariedade escondida entre os portugueses, que parece aparecer apenas quando alguém “se chega á frente”. Ainda destaco O libertino passeia por Braga, a idoláctrica, o seu esplendor, outra dos melhores trabalhos de luiz Pacheco, obra censurada pela PIDE (como outras foram), que ele diz ter escrito num café bracarense enquanto esperava por ser atendido, obra que relata um fim-de-semana libertino e despreconceituoso pelas ruas da cidade dos três pês. Não aconselhável a mentes pequenas.

Ao longo da minha procura, soube que neste momento, e com um pouco de sorte, a única coisa que se pode encontrar será o Pacheco vs Cesariny. Também soube que está para sair uma série de re-edições de Luiz pela mão da Tinta da China. Espero que este boato se confirme. A literatura portuguesa, as livrarias e os leitores precisam de Luiz Pacheco.     

07
Mar
08

Drauzio Varella estação carandiru por um fio

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Comecei a ler Drauzio impulsionado pelo filme Carandiru. Descobri que por trás de um bom filme se escondia um bom livro e um melhor escritor.

Drauzio é(ou foi) um Médico oncologista e Professor que conseguiu a partir da sua experiência profissional, descrever experiências e histórias tipicamente humanas. Demonstrando na sua obra um tremendo humanismo e toda a coragem e fontalidade que têm que caracterizar não só um médico oncologista, mas um condutor de homens.

Em Estação Carandiru, Drauzio relata os seus anos de convívio com a comunidade prisional de carandiru, uma das mais sobrelotadas e violentas prisões da América do Sul, situada na periferia de São Paulo, que veio a encerrar após um massacre policial da sua comunidade a seguir a uma revolta. Ao longo do livro, Drauzio relata as teias sociais existentes na comunidade, o seu papel de amigo e confidente, as hierarquias que se estabelecem entre presos, os atropelos á lei, as  relações com os guardas prisionais, as famílias dos presos… É notável a clareza do livro, e o quanto ele nos alerta sobre as condições dos que não vivem em liberdade. Lembro-me de uma passagem em que um preso explicava que a sua cela estava impecável, porque todos os presos cumpriam as tarefas de limpeza, afinal de contas “malandro não vai enganar malandro”.

Por um fio é diferente, Drauzio relata as histórias de amor e de coragem que estão por trás de todas aqueles que sabem que vão morrer. A forma de encarar a morte e de lidar com a inevitabilidade de morer ás mãos de um qualquer câncro. Quando a esperança de uma vida feliz e se transforma na esperança de uma morte condigna e tão indolor quanto possível.

Drauziu Varella é um daqueles escritores que prova que a vida é muito maior que a escrita e,  demonstra que a descrição só faz sentido quando é realmente sentida.        

03
Mar
08

luiz pacheco diário remendado 1971-1975

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Voltando a Luiz Pacheco. Diário Remendado não é um diário de ficção anglo-saxónico do estilo de Sue Tenswood, autora de Adrien Mole ou ao estilo mais hard-core de Irvine welsh autor de títulos tão fortes como Trainspotting ou Porno. Tão pouco é um diário tipo As pequenas memórias de Saramago, apenas sobre um breve e inocente período de vida.

Diário Remendado é um diário não-ficcional, verdadeiramente nú e crú. O Diário começa, aos 45 anos de Pacheco, enquanto este recuperava no Hospital de Santa Marta de problemas relacionados com o excesso de álcool. Este pequeno aspecto, não deixa de ser ilustrativo do diário deste libertino e sacana.  Carinhosamente sacana.

Ao longo do Diário, ficam claros os problemas da saúde de Luiz, o trabalho e responsabilidade de criar uma criança de tenra idade como o seu filho paulo (paulocas), ao mesmo tempo que se tem uma vida libertina sem preconceitos de qualquer ordem. Remédios, álcool e bissexualidade, não obstante os seus constantes votos de beber menos, de tomar menos disto ou deixar de ter relações sexuais com aquilo. Mais do que isso, o diário mostra as angústias de um homem que quis ser um escritor de profissão e que por tal se debate diáriamente com problemas financeiros, vendendo textos e livros aqui e ali para suportar o seu dia-a-dia. Tudo isto e muito mais na sua casa de Massamá onde vivia com o seu bando de libertinos, “toda a casta de bicharada” nas suas palavras.

Note-se ainda ao longo do diário, as referências de Luiz Pacheco ao 25 de Abril, não só sobre as consequências políticas em si, mas também sobre os processos que a revolução desencadeou na cultura e literatura portuguesa.    

Este é um Diário Remendado, altamente recomendável e único na literatura portuguesa. Pela sinceridade possível, e porque revela a coragem de um ser que quer ser escritor, e livre, com uma libertinagem tão lúcida que até parece ser contraditória. 

Vale ainda a pena ler o posfácio de joão Pedro george, que mais uma vez faz uma análise muito lúcida ao trabalho de Pacheco.  

Alguma curiosidade sobre Luiz Pacheco pode ser satisfeita no seu portal oficial não-oficial.