Arquivo de Abril, 2008

24
Abr
08

James Walvin Uma história da escravatura

«Arrancado a um estado de inocência e liberdade de forma tão cruel e bárbara, e assim remetido para um estado de horror e escravatura: eis uma situação de abandono que é mais fácil imaginar do que descrever.»
Ottobah Cugoano (escravo sobrevivente de uma viagem transatlântica), 1787

James walvin faz ujm trabalho simples e prático. Em duzentas-e-tal páginas descreveu a história da escravatura. Desde a antiguidade clássica até ao seu “fim”, à abolição. A escravatura na antiguidade clássica, no Médio Oriente/Islão, na época medieval, nos “Descobrimentos”, na América.

O livro retrata as condições de vida e de trabalho das sucessivas gerações de escravos, nos diversos mercados de escravos do mundo. As próprias profissões e relações sociais que se estabeleciam entre os escravos e os seus exploradores, as próprias comunidades e vivências dentro das próprias comunidades de escravos são retratadas ao longo da obra.

Este é um livro dramático. É um livro que espelha a crueldade humana, não apontando qualquer limite para esta. Os relatos que se fazem do transporte de escravos desde África até à América são particularmente chocantes, demonstrando  uma avidez pelo lucro e um mercantilismo insuportável, uma barbárie que para sempre envergonhará a humanidade.

Note-se que hoje, diversas associações que no passado eram abolicionistas, voltam hoje a ter trabalho, devido ás novas formas de escravatura(s).

Globalmente, este é um bom livro, de leitura e compreensão fácil. Altamente recomedável para jovens leitores e para quem não alinha em encobrimentos.   

21
Abr
08

quando o capitalismo descobre a Cultura

Feira do Livro: Grupo Leya não participa na Feira do Porto e pondera participação na de Lisboa

Lisboa, 18 Abr (Lusa) – O administrador-delegado do Grupo Leya, Isaías Gomes Teixeira disse hoje que o seu grupo editorial não estará presente na próxima Feira do Livro do Porto, em Maio, e pondera a presença na de Lisboa.

“O Grupo Leya não vai á Feira do Livro porque não temos interesse nela, nem a feira tem um volume de negócios que o justifique”, disse à Lusa Isaías Gomes Teixeira.

Quanto à Feira de Lisboa “depende de como irá ser organizada”, sublinhou.

O início da Feira do Livro de Lisboa está marcado para dia 22 de Maio, no Parque Eduardo VII, e a do Porto decorre de 24 de Maio a 10 de Junho no Pavilhão Rosa Mota.

A saída do Grupo Leya da Feira do porto implica a não participação e venda de livros de autores como António Lobo Antunes, José Saramago, Edurado Agualusa, Mário Cláudio, Manuel Alegre, Lídia Jorge, Mia Couto, Alice Vieira ou Rosa Lobato Faria.

O Grupo Leya, apresentado a 07 de Janeiro passado no Estoril, é liderado pelo ex-administrador do Grupo Media Capital, Miguel Paes do Amaral, e integra oito editoras, seis delas nacionais.

Constituem a Leya as editoras portuguesas Asa, Caminho, D. Quixote, Gailivro, Novagaia e Texto, a chancela angolana Nzila e a editora moçambicana Nadjira.

Na sessão de apresentação Gomes Teixeira afirmou que o grupo projecta editar este ano mil novos títulos e facturar 90 milhões de euros.

in rtp.pt

17
Abr
08

Gabriel García Marquez Viver para contá-la

Viver para contá-la de Gabo. Um livro auto-biográfico que remonta até à infância do autor, estendendo-se até ao início da sua carreira.

O mais fascinante neste trabalho, acaba por ser a capacidade de Gabriel García Marquez em recordar tantos e tão pormenorizados aspectos da sua vida. É mesmo espectacular como aproveitando est técnica, consegue transportar o leitor para esses espaços da sua vida, para as suas cidades, ruas, casas, escritórios… como consegue transportar o leitor para uma Colômbia envolvida nas constantes lutas entre Liberais e Conservadores.

Como sempre neste tipo de escrita, acaba por se realçar a forma como o autor se vê a si próprio e como viu e vê os outros, o seu mundo e o mundo em comum. Os amigos, a família, os colegas, e as ínumeras personagens que vão parecendo pelos mais pequenos pormenores ao longo da obra.

Sublinho a ideia que fica da Colômbia como um país belo e exótico, remoto e excêntrico.

Este é mais um bom livro de Gabriel García Maquez.   

03
Abr
08

Antonio Salas um ano no tráfico de mulheres

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Antonio Salas, pseudónimo, é um caso sério de jornalismo de investigação, uma modalidade morta em Portugal. Um ano no tráfico de mulheres é o trabalho resultante da sua infiltração no meio da prostituição e das suas máfias em Espanha. Tal como na sua primeira infiltração, em Diário de um skin, onde esteve no meio da extrema-direita espanhola, salas volta a fazer uma profunda investigação. Num caso e noutro, arriscou a sua saúde mental e a própria vida, disso não há dúvida. E quanto a isto, mais uma vez, Antonio Salas relata as suas dificuldades pessoais e psicológicas que um trabalho destes acarreta para o presente e futuro do jornalista e do indivíduo.

O tema dava pano para mangas, pensava eu. Mas, na verdade deu para muito mais que isso. Facto e aspectos para mim desconhecidos foram abordados por Salas. As ligações da extrema-direita espanhola na prostituição, o papel das crenças e do vudu nas prostitutas africanas, a origem e proveniência das prostitutas e dos seus clientes, a alta prostituição, a prostituição de luxo e de famosas…

Perfeitamente aterrorizadoras as caracterizações e os relatos feitos sobre as máfias de tráfico de seres humanos, de pedofilia e de sexo que se cruzam em Espanha, bem como a total destituição de escrúpulos dos seus generais e operacionais, gente integrante de redes mafiosas normalmente ligadas a outras redes e tráficos como de armas ou de droga. Máfia russa, romena, mexicana, colombiana, nigeriana, enfim, é só pensar quais são os países em dificuldades sociais e económicas…

Numa perspectiva mais literária, gostei mais do livro anterior. Provavelmente até por culpa da carga psicológica que é lidar com este meio, Salas resvalou  para um excesso de opinião pessoal, perdendo por vezes o norte. Por momentos perdeu a sua anterior objectividade, há mesmo períodos do livro onde o jornalismo praticado se assemelha ao de um tablóide, algum sensacionalismo e um excesso de juízo de valor quanto a factos, ideias e pessoas.  Achei também um retrocesso, as inúmeras apreciações insultuosas que Salas faz aos homens, mesmo aos que nunca foram clientes de prostituição. Ok, que Salas se distancie daquilo com que teve de conviver, mas não é preciso insultar todos os homens. Primeiro porque ele também é homem, segundo porque nem todos somos como os putanheiros…

Resumindo e indo ao que importa, vale a pena ler Um ano no tráfico de mulheres, e vale a pena continuar a seguir o trabalho de Antonio Salas. É bom jornalismo de investigação, apesar da crítica que se possa fazer aqui e ali.

 Esperam-se novidades de salas para brevemente.