Arquivo de Maio, 2008

27
Maio
08

Roberto Saviano Gomorra

Gomorra, pela Editora Caderno, é um livro de Roberto Saviano, um jovem escritor napolitano de 28 anos apenas. Revelou-se um livro e um escritor de grande consistência.

Gomorra é uma viagem ao império económico e ao sonho de domínio da máfia napolitana. Saviano descreve a forma tentacular como a Camorra (máfia napolitana) consegue exercer o seu domínio no tecido económico e empresarial do Sul da Itália e na Região napolitana.

Só para se ter uma ideia, o livro começa com a arrepiante história de cadáveres descobertos no momento em que embarcavam, no porto de Nápoles com destino à China. Não, não foram vitimas de um massacre, correspondiam apenas a chineses que uma vez falecidos pretendiam ser enterrados em solo chinês e que pagavam pela devolução dos seus corpos. Até neste escabroso negócia a camorra entrava.

Outras questões também bastante interessantes, e que o livro aborda, prendem-se com a influência e admiração que a camorra tem entre tantos jovens, a forma como eles admiram e imitam as associações camorristas. A forma como são treinados pela própria camorra para se tornarem verdadeiros maiosos. Os pequenos delitos, os ensaios de pancada, as provas de coragem, os testes psicológicos e de lealdade. Tudo alvo de um menso escrutínio mafioso. 

O resto do livro é um pouco o cortejo dos negócios e ligações entre as associações camorristas e o poder económico e político. O tráfico de armas e de droga, de roupa, de gente, de cadáveres, o tráfico um pouco de tudo, pois tudo pode ser sujeito a tráfico e a percentagem camorrista.

Também a influência do cinema é abordada no livro de Saviano,  a clarificação entre o que é a realidade e o que é hollywood, como a realidade e a ficção se tocam e influenciam reciprocamente. O vestuário, os gestos, a fala, as formas de matar.

 O resto do livro prende-se um pouco ás questões relacionadas entre as associações camorristas, as histórias das rivalidades e dos massacres, a polícia e a anti-máfia, as fugas, as prisões, os julgamentos, enfim, as faces da camorra, por ventura, mais expostas ao mediatismo.

O livro é bom, está no seguimento de outros livros publicados sobre o tema. É aconselhavel a quem se interessa pelo assunto e por questões sociais.      

(lamento mas não conseguir alojar neste Post qualquer imagem…)

20
Maio
08

Crónica de Ruben de Carvalho

no Expresso de 17.5.2008

A questão que se levanta em torno da realização da Feira do Livro de Lisboa fará correr certamente bastante tinta. Como tenho ideia de jamais ter faltado a alguma (embora a presença nas primeiras tenha sido substancialmente irrelevante…), julgo que talvez me seja permitido alinhavar umas considerações…
Comecemos por constatar que o respeito que merece a provecta idade da Feira não pode fazer esquecer as inúmeras mutações verificadas em tudo o que respeita ao livro.
Interessará salientar uma: a Feira ligou-se intimamente à Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, a APEL. Ora, não pode deixar de se apontar que a APEL é uma organização com traços originais, apenas compreensíveis quando se recorda que reflecte a realidade criada pelo salazarismo e o seu genético obscurantismo cultural.
É fácil depreender ser relativamente estranho que surjam associados numa mesma estrutura entidades que, lidando embora com a mesma realidade, com o mesmo produto – o livro – não têm em relação a ele exactamente os mesmos interesses. Em última instância, poderá mesmo dizer-se que conflituam porque, embora ambos desejem que o livro tenha a maior venda possível, os proventos que dele tirarão são inversos: maior seja a margem do editor no custo do livro, menor será a do livreiro – e vice-versa.
O facto da APEL se ter constituído releva da herança política e cultural do salazarismo: por um lado, alguma herança (mais que não fosse orgânica) do quadro legal fascista e da sua mistificação corporativa – os grémios – tentando iludir as contradições que inevitavelmente atravessam as sociedades; por outro, e mais importante, exactamente o facto de à época editores e livreiros terem um adversário comum – a repressão censória, a apreensão, a perseguição policial – que criou, como em tantas outras áreas da sociedade portuguesa, a evidência de que acabava sendo mais importante quanto os identificava do que quanto os separava. E tal evidência ainda mais floriu com os cravos de Abril.
Decorridas três décadas, naturalmente que lógicas diferenças de interesses se vieram a revelar ou avolumar, o que acabou por dar origem ao surgimento de nova organização associando exclusivamente editores, enquanto se manteve a APEL, procurando manter a postura de conjugar interesses e tradições nas actividades dignificadas pela comum ligação ao livro.
Das técnicas gráficas à entrada de grandes capitais na produção e na distribuição livreira, foram entretanto enormes as modificações. E, previsivelmente, agravaram-se contradições não apenas entre os protagonistas, mas em geral. Para muitos dos seus participantes, a Feira do Livro de Lisboa tem visto diminuir a sua antiga relevância económica e não podem ser ignoradas as já antigas advertências de que alguma coisa tinha de mudar face à perda de eficácia dos generosos critérios de organização e funcionamento.
O processo de concentração do sector nos últimos meses veio inevitavelmente introduzir novos factores de perturbação.
Que todos os interessados debatam a situação e tentem encontrar soluções é manifestamente a única alternativa.
Mas este interessado, certo de exprimir a concordância de muitos outros, desde já se manifesta não apenas interessado, mas inteiramente disposto a dar o seu contributo! Não se importam de fazer a Feira este ano de maneira que a gente possa lá ir ter o profundo prazer de descobrir folhas e capas desconhecidas ou esquecidas? E comprá-las, claro. Um pouco mais barato…

15
Maio
08

Fiódor Dostoiévski Os irmãos Karamazov

Este é dos livros mais difíceis de criticar ou mesmo comentar. Acabei agora mesmo de ler as quase 1000 páginas desta obra, traduzia directamente do russo por Nina Guerra e por Filipe Guerra, ainda estou na ressaca da leitura…

Indo ao que interessa, esta é mais uma bela obra Dostóievski, está muito na esteira dos seus outros trabalhos que já li e sobre os quais já aqui deixei a minha opinião. Mais um livro caracterizadvel pelo realismo psicológico que percorre a obra de Fiódor.

 A história, sumariamente, é sobre o assassinato do pai de uma familia, vindo um dos seus filhos a ser acusado e condenado pelo homicídio. Até aí e a partir daí se desenvolve uma imensa história e trama envolvendo os irmãos. Naturalmente, tudo isto enquanto o autor vai caracterizando a sociedade de São Petersburgo à época.

Quem sou eu para criticar uma obra maior de um escritor maior… mas apetece-me desabafar… penso que oesta obra peca um pouco por excesso. Excesso de trama, de enredo e de pormenor, o que não facilita a leitura e concentração do leitor. Confesso também, que julgo que esta não é uma obra para todos os leitores, ela é complexa e extensa. A compreensão da mesma não é fácil nem imediata.

Mas a verdade é que vale a pena. A prova de que gostei d’Os Irmãos karamazov e que gosto de Fiódor é que parto já de seguida para a leitura de O Idiota, depois conto…  

14
Maio
08

um pouco de BB

“Quem construíu a Tebas de sete portas? Nos livros estão nomes de reis. Arrastaram eles os blocos de pedra? E a Babilónia várias vezes destruída? Quem a reconstruiu tanta vezes? Em que casas da Lima dourada moravam os construtores? Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta? A grande Roma esta cheia de arcos do triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem Triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio tinha somente palácios para os seus habitantes? Mesmo na lendária Atlântida, os que se afogavam gritaram por seus escravos na noite em que o mar a tragou. O jovem Alexandre conquistou a Índia. Sózinho? César bateu os gauleses. Não levava sequer um cozinheiro? Filipe da Espanha chorou, quando sua Armada Naufragou. Ninguém mais chorou? Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos. Quem venceu além dele? Cada página uma vitória. Quem cozinhava o banquete? A cada dez anos um grande Homem. Quem pagava a conta? Tantas histórias. Tantas questões.”

Bertold Brecht

14
Maio
08

a saga continua…

… o grupo leya adquiriu a editora Oficina do livro. O processo de concentração continua.

05
Maio
08

Vasily Grossman Um escritor na guerra

Vasily Grossman foi um jornalista de guerra, soviético de origem judaica. Por motivos profissionais segiu o Exército vermelho durantea 2º guerra Mundial. Desde Estalinegrado a Berlim. Fez um conjunto de textos e observações verdadeiramente notáveis.

Vasily Grossman em  Um escritor na guerra, descreve de uma forma nua e crua o que foi a Frente Oriental da 2º Grande Guerra, a frente onde se encontrava sensivelmente 90% do poderio bélico da Alemanha nazi. Grossman descreve a violência do ataque|ocupação nazi em solo soviético. As barbaridades e torturas, o carácter apocalíptico de um ataque que ão visava derrotar um inimigo, mas sim eliminá-lo.

Grossman descreve a reconquista do Exército Vermelho, desde Estalinegrado até à vitória final em Berlim. Os percursos e os incidentes. A vida dos soldados e das populações.

Existe um momento do livro que é notável, penso mesmo que todos os homens o deveriam ler uma vez na vida. Treblinka.

Vesily Grossman foi um dos primeiros soviéticos a descobrir e a entrar em treblinka, um dos mais terriveis campos de concentração nazis, situado na Polónia. Grossman fez uma descrição do campo ao pormenor, relatou tudo o que viu e ouviu, calculou o número de mortos e as atrocidades por que terão passado. O seu testemunho veio até a ser utilizado no Julgamento de Nuremberga. Arrepiante.

Resumindo, o livro é de facto muito bom. Dispensaria apenas alguns apontamentos feitos pelos organizadores do livro Antony Beevor e Luba Vinogradova.