Archive for the 'Espanha' Category

03
Abr
08

Antonio Salas um ano no tráfico de mulheres

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Antonio Salas, pseudónimo, é um caso sério de jornalismo de investigação, uma modalidade morta em Portugal. Um ano no tráfico de mulheres é o trabalho resultante da sua infiltração no meio da prostituição e das suas máfias em Espanha. Tal como na sua primeira infiltração, em Diário de um skin, onde esteve no meio da extrema-direita espanhola, salas volta a fazer uma profunda investigação. Num caso e noutro, arriscou a sua saúde mental e a própria vida, disso não há dúvida. E quanto a isto, mais uma vez, Antonio Salas relata as suas dificuldades pessoais e psicológicas que um trabalho destes acarreta para o presente e futuro do jornalista e do indivíduo.

O tema dava pano para mangas, pensava eu. Mas, na verdade deu para muito mais que isso. Facto e aspectos para mim desconhecidos foram abordados por Salas. As ligações da extrema-direita espanhola na prostituição, o papel das crenças e do vudu nas prostitutas africanas, a origem e proveniência das prostitutas e dos seus clientes, a alta prostituição, a prostituição de luxo e de famosas…

Perfeitamente aterrorizadoras as caracterizações e os relatos feitos sobre as máfias de tráfico de seres humanos, de pedofilia e de sexo que se cruzam em Espanha, bem como a total destituição de escrúpulos dos seus generais e operacionais, gente integrante de redes mafiosas normalmente ligadas a outras redes e tráficos como de armas ou de droga. Máfia russa, romena, mexicana, colombiana, nigeriana, enfim, é só pensar quais são os países em dificuldades sociais e económicas…

Numa perspectiva mais literária, gostei mais do livro anterior. Provavelmente até por culpa da carga psicológica que é lidar com este meio, Salas resvalou  para um excesso de opinião pessoal, perdendo por vezes o norte. Por momentos perdeu a sua anterior objectividade, há mesmo períodos do livro onde o jornalismo praticado se assemelha ao de um tablóide, algum sensacionalismo e um excesso de juízo de valor quanto a factos, ideias e pessoas.  Achei também um retrocesso, as inúmeras apreciações insultuosas que Salas faz aos homens, mesmo aos que nunca foram clientes de prostituição. Ok, que Salas se distancie daquilo com que teve de conviver, mas não é preciso insultar todos os homens. Primeiro porque ele também é homem, segundo porque nem todos somos como os putanheiros…

Resumindo e indo ao que importa, vale a pena ler Um ano no tráfico de mulheres, e vale a pena continuar a seguir o trabalho de Antonio Salas. É bom jornalismo de investigação, apesar da crítica que se possa fazer aqui e ali.

 Esperam-se novidades de salas para brevemente. 

13
Fev
08

Gabriel García Márquez e Fidel Castro, Os segredos de uma amizade

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Gabriel García Márquez e Fidel Castro, de Ángel Estebán e Stéphanie Panichelli, é, antes de mais, um livro que relata uma amizade profunda e de profunda solidariedade.

Quer Gabriel García Márquez quer Fidel Castro, não são figuras contornáveis da América Latina, pelo contrário, ainda que em espaços e esferas diferentes são duas personagens que acabam por marcar o seu meio. Diria mesmo, são duas personagens que em si transportam um pouco do imaginário latino-americano e caribenho. As personagens, bem reais, do livro são dois belíssimos expoentes do que foi a America Latina no século passado e no presente. Com todos os seus defeitos e virtudes.

Sem colocar de parte, esconder ou salvaguardar as suas concepções ideológicas e políticas sobre as opções de Fidel e de Gabo, em nitida oposição, os autores acabam por fazer uma séria caracterização sobre o papel que Castro e Gabo tiveram na América Latina, e sobre a História desse continente no séc.XX.

O essencial do livro, óbvio, é a amizade entre ambos, as pequenas partilhas e segredos. O apoio moral e ideológico que ambos proporcionaram sinalagmaticamente, fosse nos tempos difíceis de Gabo ou numa qualquer negociação complicada para o Estado cubano.  Criticamente, assinale-se um excesso de opinião política dos autores em relação á opções ideológicas de Fidel e Gabo, também é criticável a exposição excessiva de pormenores da vida privada, um pouco ao jeito côr-de-rosa.

Para quem se interessa pela América Latina, pela turbulência desta região, pelo século XX, fica um bom livro ainda assim, cuja leitura carece de alguma objectividade, e que conta a história de dois seres que se conheceram, faz muitos muitos anos,  na Faculdade de Direito de Bógota.