Archive for the 'Portugal' Category

09
Jul
08

José Goulão o labirinto da conspiração

Este não é um livro recente. O labirinto da conspiração de João Goulão, foi editado pela Caminho no já distante ano de 1986.

O labirinto da conspiração, analisa três vértices da conspiração internacional: a maçonaria (nomeadamente a loja P2), a máfia e a Opus Dei. No essencial, parece-me que Goulão procurou expor aos olhos do leitor as realidades não visíveis, mas que podem ser precepcionadas, e que de uma forma ou de outra acabam por ter relevância no fluxo da sociedade.

Teias, ligações, compadrios, amiguismos, corrupções, tudo na calada do segredo típico de organizações secretas (que por algum motivo querem ser secretas…). Igreja, poder económico, poder político, serviços secretos, grupos bombistas. Poder e dinheiro, muito dinheiro. Os traços comuns de todas estas organizações, os objectivos finais de todas.  

Analisando o livro hoje, é fácil notar alguma desactualização, mas também se pode notar o intenso trabalho de busca e investigação feito pelo seu autor. E nestas coisas, há uma coisa que deve ser dita, escrever o que foi escrito, foi também um acto de coragem. 

15
Mar
08

luiz pacheco exercícios de estilo

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Continuo num período pachecal. Foi literalmente “o diabo” para conseguir encontrar Exercícios de Estilo, é mesmo muito difícil encontrar esta obra publicada pela Estampa. Apetece-me dizer que só uma boa livraria tem este livro…

Valeu bem a pena a árdua procura. Exercícios de Estilo é uma compilação de textos e histórias, muitas delas não me acredito que sejam de carácter ficcional. Pelo contrário, são passagens da vida conturbada e fascinante de luiz.

Destaco 4 textos: O teodolito, Comunidade, Porto-Lisboa a pedir esmola e ainda O Libertino passeia por Braga, a idoláctrica, o seu esplendor

O teodolito, a imensa metáfora entre um instrumento de observação de astros e o sexo. A Comunidade, provavelmente o texto maior de Pacheco, onde este relata uma vida sexual em comunidade (o seu filho refere o carácter auto-biográfico deste texto nomeadamente a infância). Porto-Lisboa a pedir esmola, a aventura de quem não se resigna ao pouco dinheiro que tem, uma história que acaba por revelar aquela solidariedade escondida entre os portugueses, que parece aparecer apenas quando alguém “se chega á frente”. Ainda destaco O libertino passeia por Braga, a idoláctrica, o seu esplendor, outra dos melhores trabalhos de luiz Pacheco, obra censurada pela PIDE (como outras foram), que ele diz ter escrito num café bracarense enquanto esperava por ser atendido, obra que relata um fim-de-semana libertino e despreconceituoso pelas ruas da cidade dos três pês. Não aconselhável a mentes pequenas.

Ao longo da minha procura, soube que neste momento, e com um pouco de sorte, a única coisa que se pode encontrar será o Pacheco vs Cesariny. Também soube que está para sair uma série de re-edições de Luiz pela mão da Tinta da China. Espero que este boato se confirme. A literatura portuguesa, as livrarias e os leitores precisam de Luiz Pacheco.     

03
Mar
08

luiz pacheco diário remendado 1971-1975

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Voltando a Luiz Pacheco. Diário Remendado não é um diário de ficção anglo-saxónico do estilo de Sue Tenswood, autora de Adrien Mole ou ao estilo mais hard-core de Irvine welsh autor de títulos tão fortes como Trainspotting ou Porno. Tão pouco é um diário tipo As pequenas memórias de Saramago, apenas sobre um breve e inocente período de vida.

Diário Remendado é um diário não-ficcional, verdadeiramente nú e crú. O Diário começa, aos 45 anos de Pacheco, enquanto este recuperava no Hospital de Santa Marta de problemas relacionados com o excesso de álcool. Este pequeno aspecto, não deixa de ser ilustrativo do diário deste libertino e sacana.  Carinhosamente sacana.

Ao longo do Diário, ficam claros os problemas da saúde de Luiz, o trabalho e responsabilidade de criar uma criança de tenra idade como o seu filho paulo (paulocas), ao mesmo tempo que se tem uma vida libertina sem preconceitos de qualquer ordem. Remédios, álcool e bissexualidade, não obstante os seus constantes votos de beber menos, de tomar menos disto ou deixar de ter relações sexuais com aquilo. Mais do que isso, o diário mostra as angústias de um homem que quis ser um escritor de profissão e que por tal se debate diáriamente com problemas financeiros, vendendo textos e livros aqui e ali para suportar o seu dia-a-dia. Tudo isto e muito mais na sua casa de Massamá onde vivia com o seu bando de libertinos, “toda a casta de bicharada” nas suas palavras.

Note-se ainda ao longo do diário, as referências de Luiz Pacheco ao 25 de Abril, não só sobre as consequências políticas em si, mas também sobre os processos que a revolução desencadeou na cultura e literatura portuguesa.    

Este é um Diário Remendado, altamente recomendável e único na literatura portuguesa. Pela sinceridade possível, e porque revela a coragem de um ser que quer ser escritor, e livre, com uma libertinagem tão lúcida que até parece ser contraditória. 

Vale ainda a pena ler o posfácio de joão Pedro george, que mais uma vez faz uma análise muito lúcida ao trabalho de Pacheco.  

Alguma curiosidade sobre Luiz Pacheco pode ser satisfeita no seu portal oficial não-oficial.

17
Fev
08

Luiz Pacheco o crocodilo que voa

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O crocodilo que voa, entrevistas a Luiz Pacheco, com organização e prefácio de João Pedro George. Um livro que compilando uma série de entrevistas, que vão desde os anos setenta até á sua última feita em Janeiro deste ano para o jornal Sol. Sacana, libertino e escritor, uma caracterização de Luiz Pacheco feita por Baptista Bastos, que parece acentar como uma luva na fascinante personagem que foi Pacheco.

Pacheco foi um profundo conhecedor da literatura portuguesa do século XX, dos seus personagens e da sua trajectória, foi um homem de uma frontalidade chocante, capaz de questionar tudo neste país onde nada se questiona e tudo parece mais ou menos bem. Mas também, nitidamente, um homem de um grande sentido de humor e de oportunidade, parece não haver momento algum em que ele não consiga tentar vislumbrar uma aberta onde possa espetar uma farpa. Mas sempre demonstrando nas entrelinhas uma tremenda sobriedade e atenção.

Quanto ao livro, lamente-se apenas a repetição de perguntas entrevista atrás de entrevista (facto que o Próprio Pacheco assinala), e também, algum opurtunismo que alguns entrevistadores demonstraram ao procurar ridicularizar ao máximo Luiz Pacheco. Mas, para Pacheco alguns dos entrevistadores não passaram de tremoços…

Algumas das entrevistas que destaco: Olhó Pacheco! sacana libertino e escritor de 1994, Sou um moribundo alegre de 1995, Isto só me tem dado chatices de 1995, estúpifos, conformistas, cobardes: é a maioria da malta de 2005, Eu não sou um marginal, porra, sou um senhor de 2005, não estou aqui a fazer pose de 2008.     

O crocodilo que voa é altamente recomendável, bem organizado e, pode com o tempo vir a ser um importante livro para a compreensão da literatura e de alguns dos seus criadores no séc.XX.  Enfim, vou pegar nestas palavras de Luiz Pacheco “Está para sair um livro de entrevistas suas… Esse livro é uma merda! Isso é uma aldrabice. É bom para andar por essas pequenas editoras“.

15
Fev
08

Alves Redol Barranco de Cegos

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Apetece-me fazer uma referência a este autor, por ventura extensível a toda a sua escola. Alves Redol é um dos escritores que está a morrer. Hoje, hoje em dia, não existem muitas livrarias que ainda tenham Alves Redol, menos ainda são aquelas que se poderão gabar de vender Alves Redol, é dificílimo encontrar obras como Barranco de cegos, Avieiros ou Gaibéus.

De facto, o neo-realismo, sob a forma literária, do início do séc. XX está desaparecer das estantes. Nas escolas não se dá, o público e os leitores também não manifestam grande interesse e, as editoras e o Estado não querem saber, ou porque não dá lucro ou porque não interessa… (nota – voltar a este tema mais tarde). A única boa notícia sobre o tema, foi a abertura do Museu do neo-realismo em V. Franca de Xira, que a ver vamos no que irá desaguar.     

Barranco de cegos, livro de 1962, e uma das melhores obras de Alves Redol. A narrativa é uma caracterização da burguesia ribatejana, do pensamento e estilo de vida daquela gente. A divisão existente, mesmo dentro da burguesia entre os liberais e os absolutistas, entre os repúblicanos e os monárquicos, entre os rurais e os urbanos. Mas não só pela caracterização da classe se fica, o relato narra as desventuras de uma família em que diferentes gerações apresentam distâncias cada vez mais latentes.

Como obra neo-realista que é, Barranco de cegos, expõe ainda as condições de vida e de trabalho da classe operária rural do Ribatejo. Enfim, uma obra importante do neo-realismo português.