Archive for the 'Rússia' Category

15
Maio
08

Fiódor Dostoiévski Os irmãos Karamazov

Este é dos livros mais difíceis de criticar ou mesmo comentar. Acabei agora mesmo de ler as quase 1000 páginas desta obra, traduzia directamente do russo por Nina Guerra e por Filipe Guerra, ainda estou na ressaca da leitura…

Indo ao que interessa, esta é mais uma bela obra Dostóievski, está muito na esteira dos seus outros trabalhos que já li e sobre os quais já aqui deixei a minha opinião. Mais um livro caracterizadvel pelo realismo psicológico que percorre a obra de Fiódor.

 A história, sumariamente, é sobre o assassinato do pai de uma familia, vindo um dos seus filhos a ser acusado e condenado pelo homicídio. Até aí e a partir daí se desenvolve uma imensa história e trama envolvendo os irmãos. Naturalmente, tudo isto enquanto o autor vai caracterizando a sociedade de São Petersburgo à época.

Quem sou eu para criticar uma obra maior de um escritor maior… mas apetece-me desabafar… penso que oesta obra peca um pouco por excesso. Excesso de trama, de enredo e de pormenor, o que não facilita a leitura e concentração do leitor. Confesso também, que julgo que esta não é uma obra para todos os leitores, ela é complexa e extensa. A compreensão da mesma não é fácil nem imediata.

Mas a verdade é que vale a pena. A prova de que gostei d’Os Irmãos karamazov e que gosto de Fiódor é que parto já de seguida para a leitura de O Idiota, depois conto…  

05
Maio
08

Vasily Grossman Um escritor na guerra

Vasily Grossman foi um jornalista de guerra, soviético de origem judaica. Por motivos profissionais segiu o Exército vermelho durantea 2º guerra Mundial. Desde Estalinegrado a Berlim. Fez um conjunto de textos e observações verdadeiramente notáveis.

Vasily Grossman em  Um escritor na guerra, descreve de uma forma nua e crua o que foi a Frente Oriental da 2º Grande Guerra, a frente onde se encontrava sensivelmente 90% do poderio bélico da Alemanha nazi. Grossman descreve a violência do ataque|ocupação nazi em solo soviético. As barbaridades e torturas, o carácter apocalíptico de um ataque que ão visava derrotar um inimigo, mas sim eliminá-lo.

Grossman descreve a reconquista do Exército Vermelho, desde Estalinegrado até à vitória final em Berlim. Os percursos e os incidentes. A vida dos soldados e das populações.

Existe um momento do livro que é notável, penso mesmo que todos os homens o deveriam ler uma vez na vida. Treblinka.

Vesily Grossman foi um dos primeiros soviéticos a descobrir e a entrar em treblinka, um dos mais terriveis campos de concentração nazis, situado na Polónia. Grossman fez uma descrição do campo ao pormenor, relatou tudo o que viu e ouviu, calculou o número de mortos e as atrocidades por que terão passado. O seu testemunho veio até a ser utilizado no Julgamento de Nuremberga. Arrepiante.

Resumindo, o livro é de facto muito bom. Dispensaria apenas alguns apontamentos feitos pelos organizadores do livro Antony Beevor e Luba Vinogradova.  

26
Mar
08

Fiódor Dostoiévski gente pobre

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Gente Pobre, escrito enquanto Dostoiévski apenas tinha 25 anos, é um podereoso livro de crónica social.

Duas personagens apenas, um humilde funcionário público e uma costureira, trocam cartas entre si, gente pobre está bom de ver. Uma caracterização da pobreza á moda russa. Em São Petersburgo. Os problemas diários relacionados com a habitação, a comida e o vestuário. O frio e uma sociedade que escarna dos pobres.  Um livro de Dostoiévski, mais um, com uma feroz crítica social. Provavelmente uma das obras que o mandou para a cadeia siberiana. 

Não seria um livro de Fiódor se uma feroz carga psicológica não carregasse as personagens, onde os seus passados pessoais se misturam com os seus feitios e reacções.

Chamo à colação Federico García Lorca, “o insigne escritor russo, Fedor Dostoiévski, muito mais pai da revolução russa do que Lenine”.

20
Mar
08

Fiódor Dostoiévski o jogador

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O Jogador de Dostoiévski foi publicado, tal como Crime e Castigo, em 1866. Ou seja, há quase 150 anos… Ora, começo mesmo por aqui a apreciação.

Dostoiévski é um romancista, que incute nas personagens das suas obras cargas psicológicas fortíssimas, o que acaba por lhes conferir alguma intemporalidade, e essa é uma arma da genialidade  de Dostoiévski. Na verdade, O Jogador é um texto marcado pelos sentimentos e sensações de um dependente. A angústia, a solidão, a adrenalina, a paixão, o desespero e a sorte. O leitor é transportado para o interior de uma sala de casino alemão no século XIX.

Um livro habitada por servos, mademoiselles, generais, nobres e burgueses, velhos e velhas desda a Alemanha até à Rússia. Acabando por construir também, uma caracterização social crítica  dos usos e costumes, esteriotipando ricos e pobres, explicando a diferenças entre uns e outros, mesmo no jogo.

O jogador não é o grande livro de Dostoiévski, mas é um bom livro e de fácil leitura.

14
Fev
08

Anna Politkovskaya A Rússia de Putin

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Pela mão da Grito de Alma, com tradução de Pedro da Lua (cada vez parce ser mais importante o tradutor), o último livro da Anna Politkovskaya, “A Rússia de Putin”.

Ao longo do livro, nas vestes de uma jornalista de investigação, Anna descreve o fenómeno da corrupção e a forma tentacular que tem ao longo do Estado russo, ao longo das relações entre o Estado e o Privado. As pequenas histórias de poder e as teias de dependências que a corrupção produz. As classes sociais emergentes e os novas classes de poder nascidas no período pós-URSS.

O livro não se fica apenas pela corrupção. O livro faz também uma caracterização das condições de vida do povo russo, uma comparação entre o passado recente e o presente nas diversas dimensões. Conta histórias de gente, homens e mulheres que se perdem na guerra da Tchétchénia, dos que se perderam e se esconderam sob o escudo da burocracia e dos privilégios do exército russo e das suas altas patentes.

A mãe que perdeu o filho e tudo o que pouco que tinha para saber que o perdeu, o militar que recebendo um salário de miséria tem a seu cargo uma ogiva nuclear, os novos donos e as máfias da metalúrgia, a amiga que eniqueceu na corrupção, o massacre de Beslan… Resumindo, cada capítulo é uma reportagem que vale a pena ser lida. Anna Politkovskaya fez um bom livro.

“Nós, os que vivemos na União Soviética, onde quase todos tínhamos um emprego estável e um salário com que podíamos contar, que tínhamos uma confiança inquebrantável e ilimitada no que o amanhã nos traria. Nós, que sabíamos que havia médicos capazes de nos curarem de todas as doenças e professores capazes de nos ensinarem tudo; e que sabíamos também que não teríamos de pagar um tostão por tudo isso. Que tipo de vida pretendemos levar hoje? Que novos papéis nos foram dados?
As mudanças desde o fim da era soviética foram a triplicar. Primeiro, passámos por uma revolução pessoal (em paralelo, claro, com a revolução social), quando a União Soviética se dissolveu durante o consulado de Boris Yeltsin. Tudo desapareceu de um momento para o outro: a ideologia soviética, as salsichas baratas, o dinheiro no bolso e a certeza de que havia um Paizinho no Kremlin que, ainda que fosse um déspota, pelo menos era responsável por nós.
A segunda mudança veio em 1998 com o défice e a bancarrota. Muitos de nós tinham conseguido amealhar algum dinheiro nos anos que se seguiram a 1991, quando a economia de mercado foi efectivamente introduzida e houve sinais de aparecimento de uma classe média. Uma classe média à russa, convenhamos; não uma classe média como a que podemos encontrar no Ocidente (sem dimensão para suportar a democracia e o mercado, tal e qual está a acontecer com a decadência no Ocidente). Da noite para o dia, tudo isto desapareceu. Por essa altura, muitas das pessoas estavam tão cansadas da luta quotidiana pela sobrevivência, que não tinham forças para enfrentar um novo desafio, pura e simplesmente deixando-se afundar sem vestígios”.

13
Fev
08

Vladimir NabokovLolita

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Lolita, do escritor russo Vladimir Nabokov, é um livro de 1955, que posteriormente veio a ter adaptação cinematográfica pelo realizador Stanley Kubrick, já em 1960.

Em Lolita, Nabokov, descreve a figura de um pedófilo francês, professor, que vem a encontrar nos Estados Unidos, por motivos profissionais o seu amor. Lolita, uma criança a que terá de dar explicações.

Ao longo do livro, Nabokov, vai relatando a vida amorosa de um homem que não consegue saciar as suas necessidades em qualquer mulher do seu meio, tão pouco em vulgares prostitutas (com excepção para uma que afinal também era uma criança). A vida de um homem que gradualmente se vai desintegrando psicológicamente e emocionalmente, perdendo todo o senso  de racionalidade.   

Em Lolita, o autor consegue transportar o leitor para o olhar, o pulsar, as emoções de um pedófilo, que deixa de ser um mero apreciador de crianças para se transformar num obcessivo amante de uma criança apenas. Desde o momento em que trava contacto com ela, até ao momento em que consegue consumar a sua obcessão.