Archive for the 'Uncategorized' Category

20
Maio
08

Crónica de Ruben de Carvalho

no Expresso de 17.5.2008

A questão que se levanta em torno da realização da Feira do Livro de Lisboa fará correr certamente bastante tinta. Como tenho ideia de jamais ter faltado a alguma (embora a presença nas primeiras tenha sido substancialmente irrelevante…), julgo que talvez me seja permitido alinhavar umas considerações…
Comecemos por constatar que o respeito que merece a provecta idade da Feira não pode fazer esquecer as inúmeras mutações verificadas em tudo o que respeita ao livro.
Interessará salientar uma: a Feira ligou-se intimamente à Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, a APEL. Ora, não pode deixar de se apontar que a APEL é uma organização com traços originais, apenas compreensíveis quando se recorda que reflecte a realidade criada pelo salazarismo e o seu genético obscurantismo cultural.
É fácil depreender ser relativamente estranho que surjam associados numa mesma estrutura entidades que, lidando embora com a mesma realidade, com o mesmo produto – o livro – não têm em relação a ele exactamente os mesmos interesses. Em última instância, poderá mesmo dizer-se que conflituam porque, embora ambos desejem que o livro tenha a maior venda possível, os proventos que dele tirarão são inversos: maior seja a margem do editor no custo do livro, menor será a do livreiro – e vice-versa.
O facto da APEL se ter constituído releva da herança política e cultural do salazarismo: por um lado, alguma herança (mais que não fosse orgânica) do quadro legal fascista e da sua mistificação corporativa – os grémios – tentando iludir as contradições que inevitavelmente atravessam as sociedades; por outro, e mais importante, exactamente o facto de à época editores e livreiros terem um adversário comum – a repressão censória, a apreensão, a perseguição policial – que criou, como em tantas outras áreas da sociedade portuguesa, a evidência de que acabava sendo mais importante quanto os identificava do que quanto os separava. E tal evidência ainda mais floriu com os cravos de Abril.
Decorridas três décadas, naturalmente que lógicas diferenças de interesses se vieram a revelar ou avolumar, o que acabou por dar origem ao surgimento de nova organização associando exclusivamente editores, enquanto se manteve a APEL, procurando manter a postura de conjugar interesses e tradições nas actividades dignificadas pela comum ligação ao livro.
Das técnicas gráficas à entrada de grandes capitais na produção e na distribuição livreira, foram entretanto enormes as modificações. E, previsivelmente, agravaram-se contradições não apenas entre os protagonistas, mas em geral. Para muitos dos seus participantes, a Feira do Livro de Lisboa tem visto diminuir a sua antiga relevância económica e não podem ser ignoradas as já antigas advertências de que alguma coisa tinha de mudar face à perda de eficácia dos generosos critérios de organização e funcionamento.
O processo de concentração do sector nos últimos meses veio inevitavelmente introduzir novos factores de perturbação.
Que todos os interessados debatam a situação e tentem encontrar soluções é manifestamente a única alternativa.
Mas este interessado, certo de exprimir a concordância de muitos outros, desde já se manifesta não apenas interessado, mas inteiramente disposto a dar o seu contributo! Não se importam de fazer a Feira este ano de maneira que a gente possa lá ir ter o profundo prazer de descobrir folhas e capas desconhecidas ou esquecidas? E comprá-las, claro. Um pouco mais barato…

14
Maio
08

um pouco de BB

“Quem construíu a Tebas de sete portas? Nos livros estão nomes de reis. Arrastaram eles os blocos de pedra? E a Babilónia várias vezes destruída? Quem a reconstruiu tanta vezes? Em que casas da Lima dourada moravam os construtores? Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta? A grande Roma esta cheia de arcos do triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem Triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio tinha somente palácios para os seus habitantes? Mesmo na lendária Atlântida, os que se afogavam gritaram por seus escravos na noite em que o mar a tragou. O jovem Alexandre conquistou a Índia. Sózinho? César bateu os gauleses. Não levava sequer um cozinheiro? Filipe da Espanha chorou, quando sua Armada Naufragou. Ninguém mais chorou? Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos. Quem venceu além dele? Cada página uma vitória. Quem cozinhava o banquete? A cada dez anos um grande Homem. Quem pagava a conta? Tantas histórias. Tantas questões.”

Bertold Brecht

14
Maio
08

a saga continua…

… o grupo leya adquiriu a editora Oficina do livro. O processo de concentração continua.

21
Abr
08

quando o capitalismo descobre a Cultura

Feira do Livro: Grupo Leya não participa na Feira do Porto e pondera participação na de Lisboa

Lisboa, 18 Abr (Lusa) – O administrador-delegado do Grupo Leya, Isaías Gomes Teixeira disse hoje que o seu grupo editorial não estará presente na próxima Feira do Livro do Porto, em Maio, e pondera a presença na de Lisboa.

“O Grupo Leya não vai á Feira do Livro porque não temos interesse nela, nem a feira tem um volume de negócios que o justifique”, disse à Lusa Isaías Gomes Teixeira.

Quanto à Feira de Lisboa “depende de como irá ser organizada”, sublinhou.

O início da Feira do Livro de Lisboa está marcado para dia 22 de Maio, no Parque Eduardo VII, e a do Porto decorre de 24 de Maio a 10 de Junho no Pavilhão Rosa Mota.

A saída do Grupo Leya da Feira do porto implica a não participação e venda de livros de autores como António Lobo Antunes, José Saramago, Edurado Agualusa, Mário Cláudio, Manuel Alegre, Lídia Jorge, Mia Couto, Alice Vieira ou Rosa Lobato Faria.

O Grupo Leya, apresentado a 07 de Janeiro passado no Estoril, é liderado pelo ex-administrador do Grupo Media Capital, Miguel Paes do Amaral, e integra oito editoras, seis delas nacionais.

Constituem a Leya as editoras portuguesas Asa, Caminho, D. Quixote, Gailivro, Novagaia e Texto, a chancela angolana Nzila e a editora moçambicana Nadjira.

Na sessão de apresentação Gomes Teixeira afirmou que o grupo projecta editar este ano mil novos títulos e facturar 90 milhões de euros.

in rtp.pt

28
Mar
08

livrarias no Porto

“A Byblos não está só na intenção de reforçar a oferta livreira no Porto, sobretudo na zona da Baixa da cidade. O empresário Américo Areal, antigo proprietário das Edições ASA, entretanto adquirida por Miguel Paes do Amaral, foi o primeiro a anunciar a intenção de abrir “a maior livraria do país” na Praça de Lisboa, no cimo da Rua dos Carmelitas, mas, ainda antes da entrada em funcionamento desse espaço – o que não deverá acontecer antes do final de 2009, dada a complexidade do projecto de requalificação urbana -, a Baixa vai acolher a mais recente proposta livreira do grupo Civilização.

Situada na Rua Sampaio Bruno, a nova Livraria Leitura assume-se como o terceiro espaço da rede no Porto, depois das situadas na Rua José Falcão e no Shopping Cidade do Porto. São mil metros quadrados divididos por dois pisos num edifício que irá acolher também a sede do grupo livreiro, proprietário das livrarias Bulhosa, em Lisboa.

“A melhor zona da cidade”

Administrador do grupo Leitura/Bulhosa, Pedro Gil Mata classifica a aposta numa zona que até há pouco tempo era apenas associada ao abandono como “um sinal de esperança”.

“Acreditamos que este projecto possa ter um efeito galvanizador nesta área, atraindo mais investimentos”, concretiza o administrador, que apelida a Baixa portuense como “o melhor espaço comercial da cidade”.

“Temos a noção de que a livraria não será um fenómeno de vendas no imediato, mas a nossa intenção é rentabilizar o investimento numa perspectiva de longo prazo”, diz Gil Mata.

Para combater o muito apontado esvaziamento nocturno da Baixa, os responsáveis da Livraria Leitura planeiam um “horário de funcionamento alargado”, pelo que “o encerramento nunca será antes das 21 horas, com tendência para que feche ainda mais tarde durante o fim-de-semana”

Assumindo-se como “um espaço generalista”, a nova “Leitura” elege a ficção estrangeira como uma das suas principais apostas. O edifício, situado nas proximidades do Teatro Sá da Bandeira, foi adquirido de raiz pelo grupo e deverá albergar 90 funcionários.

Também a Bertrand planeia abrir brevemente um espaço comercial de grandes dimensões na cidade do Porto. Embora não se situe na Baixa – a Rua Júlio Dinis é o destino escolhido -, a nova loja insere-se numa reorganização estratégica do sector livreiro por parte da empresa detida pelo poderoso grupo Bertelsmann, já que deverá implicar o encerramento das lojas nos shoppings Brasília e Cidade do Porto, situadas nas imediações do novo estabelecimento.

O rol de espaços livreiros a abrir no Grande Porto durante os próximos meses é mais vasto e inclui ainda dois espaços previstos para o IKEA de Matosinhos. A Fnac e a Bertrand são duas das empresas que já manifestaram interesse em explorar os novos espaços. “

20
Fev
08

breve caracterização de uma livraria decadente (em tempos)

“Comecei a ir à Leitura ainda se chamava Divulgação. Há muito tempo. Lembro-me de ver lá Sá Carneiro que tinha escritório perto. Lembro-me da Leitura pequena e da Leitura grande e da do meio, com os livros empilhados na escada que subia ao andar de cima, sem espaço. Lembro-me da Leitura de Fernando Fernandes. Quando a Leitura ganhou dimensão e espaço escrevi um texto que está aqui. Depois começaram os sinais imperceptíveis da decadência, sempre os mesmos livros, falta de renovação, rigidez nas estantes. A gente que habita livrarias percebe logo o que se está passar. Na última vez que lá tinha estado a senhora do balcão tinha lágrimas nos olhos, não sabia o que ia acontecer. O ciclo de vendas sucessivas começara e ninguém sabia o que ia acontecer.”

José Pacheco Pereira, in Abrupto

19
Fev
08

sentados no chão

“Há jovens que passam tardes, sentados no chão, a devorarem livros. Mas, esses, que hoje não compram nada, vão ser os mesmos que no futuro vão comprar muitos livros para os filhos”. E insiste que o lema deve ser: “Venha, leia, se quiser, compre”. Américo Areal, Byblos

via o absurdo