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14
Fev
08

Anna Politkovskaya A Rússia de Putin

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Pela mão da Grito de Alma, com tradução de Pedro da Lua (cada vez parce ser mais importante o tradutor), o último livro da Anna Politkovskaya, “A Rússia de Putin”.

Ao longo do livro, nas vestes de uma jornalista de investigação, Anna descreve o fenómeno da corrupção e a forma tentacular que tem ao longo do Estado russo, ao longo das relações entre o Estado e o Privado. As pequenas histórias de poder e as teias de dependências que a corrupção produz. As classes sociais emergentes e os novas classes de poder nascidas no período pós-URSS.

O livro não se fica apenas pela corrupção. O livro faz também uma caracterização das condições de vida do povo russo, uma comparação entre o passado recente e o presente nas diversas dimensões. Conta histórias de gente, homens e mulheres que se perdem na guerra da Tchétchénia, dos que se perderam e se esconderam sob o escudo da burocracia e dos privilégios do exército russo e das suas altas patentes.

A mãe que perdeu o filho e tudo o que pouco que tinha para saber que o perdeu, o militar que recebendo um salário de miséria tem a seu cargo uma ogiva nuclear, os novos donos e as máfias da metalúrgia, a amiga que eniqueceu na corrupção, o massacre de Beslan… Resumindo, cada capítulo é uma reportagem que vale a pena ser lida. Anna Politkovskaya fez um bom livro.

“Nós, os que vivemos na União Soviética, onde quase todos tínhamos um emprego estável e um salário com que podíamos contar, que tínhamos uma confiança inquebrantável e ilimitada no que o amanhã nos traria. Nós, que sabíamos que havia médicos capazes de nos curarem de todas as doenças e professores capazes de nos ensinarem tudo; e que sabíamos também que não teríamos de pagar um tostão por tudo isso. Que tipo de vida pretendemos levar hoje? Que novos papéis nos foram dados?
As mudanças desde o fim da era soviética foram a triplicar. Primeiro, passámos por uma revolução pessoal (em paralelo, claro, com a revolução social), quando a União Soviética se dissolveu durante o consulado de Boris Yeltsin. Tudo desapareceu de um momento para o outro: a ideologia soviética, as salsichas baratas, o dinheiro no bolso e a certeza de que havia um Paizinho no Kremlin que, ainda que fosse um déspota, pelo menos era responsável por nós.
A segunda mudança veio em 1998 com o défice e a bancarrota. Muitos de nós tinham conseguido amealhar algum dinheiro nos anos que se seguiram a 1991, quando a economia de mercado foi efectivamente introduzida e houve sinais de aparecimento de uma classe média. Uma classe média à russa, convenhamos; não uma classe média como a que podemos encontrar no Ocidente (sem dimensão para suportar a democracia e o mercado, tal e qual está a acontecer com a decadência no Ocidente). Da noite para o dia, tudo isto desapareceu. Por essa altura, muitas das pessoas estavam tão cansadas da luta quotidiana pela sobrevivência, que não tinham forças para enfrentar um novo desafio, pura e simplesmente deixando-se afundar sem vestígios”.